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terça-feira, fevereiro 16, 2010

CHEGOU A QUARESMA

Como ocorre todo o ano, após o festejo de momo, surge novamente a quaresma, um ritual cristão mais propriamente da Igreja católica, sendo que as demais Igrejas denominadas Evangélicas não possuem esse ritual.

A palavra quaresma, se traduz do latim, quadragésima, é para os católicos um período de orações e sacrifícios e que antecede a maior festividade do catolicismo: a ressurreição de Jesus Cristo, ou seja, a páscoa.

Esse período de orações e jejuns inicia-se na quarta feira de cinzas e seque até a quinta feira santa, ocasião em que se comemora a última ceia de Cristo com seus apóstolos, e termina no sábado de aleluia.

O período da quaresma são quarenta dias após o carnaval, mas se contado em sua totalidade, daria uma soma de quarenta e sete dias, porém como os domingos já são santos para os católicos, eles não são contados, ficando assim somente os quarenta dias.

Nos templos de Umbanda é comum os trabalhos seguirem em ritmo normal, iniciando na quarta feira de cinzas com uma gira de pretos velhos, que veem na terra para nos conceder as cinzas que nos redimirão dos atos praticados no carnaval, e afastará os espíritos inferiores que normalmente se aproximam das pessoas durante o carnaval, pois mesmo na Umbanda, as entidades de luz, afastam-se durante os dias da festividade de momo.

Dentro das casas de Candomblé, hoje em dia existem variações com relação a esse ritual: os antigos zeladores para serem aceitos pela comunidade local, a exemplo do que faziam negros e negras como Chica da Silva, que viveu em no Arraial do Tijuco hoje Diamantina MG, entravam para as irmandades da igreja católica, como Sagrado Coração de Jesus, e seguiam seus rituais e preceitos. Assim sendo, introduziram dentro do Candomblé o ato de se resguardar a quaresma, ou seja, a casa fica fechada durante os quarenta dias desse rito.

Comumente vemos casas de Angola e mesmo algumas de Jêje ou Kêtu que mantêm suas festividades suspensas, pois acreditam que: “o santo está dormindo” ou seja, afastado da terra e que somente exú responde e governa para eles durante essa passagem. No sábado de aleluia tocam o adarrun, toque sagrado para invocar os orixás de volta a nosso planeta.

Porém hoje em dia com a atual situação das religiões afro-brasileiras, esse tipo de ritual vem sido abolido em grande maioria das casas de candomblé, pois, conforme dizem seus zeladores: “trata-se de um ritual cristão e não do axé orixá”, assim sendo não veem motivo para que se mantenha na atualidade.

Um outro fator que com certeza contribuiu e muito para a introdução desse preceito no candomblé, foi o fato de que os negros eram proibidos por seus “donos” a praticarem a religião de seus antepassados e assim sendo, primaram pelo sincretismo.

Mesmo em meados do século XX, ainda era comum a policia perseguir os templos de Umbanda e Candomblé, ocasião em que prendiam todos que se encontravam naquele local, então, os sacerdotes e sacerdotisas continuaram a manter o culto da quaresma como forma de mostrar uma “submissão” ao cristianismo, afastando assim a idéia de culto demoníaco, que erroneamente se tinha de nossa religião.

Mas, com o avanço das leis, muitas casas hoje em dia, aboliram esse ritual, e assim sendo, podemos até mesmo ver saídas de yawô durante os quarenta dias que se seguem após a folia.

Se esse ou aquele está errado, nessas humildes páginas não nos compete dizermos, apenas posso afirmar que, se cultuando ou não a quaresma, o que realmente importa é que sigamos fielmente as leis de nossos orixás, não nos importando as pedras que encontraremos em nosso caminho.

Não nos importa o ritmo de cada casa e de seu sacerdote, o que importa realmente, é que sejamos fiéis à casa que nosso orixá escolheu, pois ele com certeza sabe o que é melhor para seus filhos.

Sérgio Silveira, Tatetú n”inkisi: Odé Mutaloiá

odemutaloia@hotmail.com




















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