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domingo, outubro 27, 2013

A FÉ E A CIÊNCIA



Nós que temos casa aberta, frequentemente somos chamados para intervir em assuntos de doença. Muito, muito válido, pois pesquisas feitas por médicos e cientistas, mostram que a fé tem sim, aumentando e de forma valorosa a quantidade de pessoas que se recuperam de doenças sérias e que poderiam já; terem falecido.

Eu mesmo, tenho presenciado ao longo de meu sacerdócio, curas simplesmente milagrosas, inclusive, vivenciei o fato com minha mãe: ela ao 90 anos teve um AVE e brônquio aspirou todo o almoço. Resultado: a comida foi para seus pulmões e ela ficou internada 60 dias, sendo mais de 30 em coma total. Chegou a ser desenganada pelos médicos, disseram que ela iria falecer, que não tinham mais recursos a serem usados. Ela estava internada em um hospital particular, com tudo pago por seu plano de saúde.

Mas, viveu e saiu do hospital. E foi tendo vários micros AVEs, e sendo internada varias vezes. Na última internação em Maio desse ano, ela voltou para o hospital e a médica que estava na UTI, disse para minha irmã e sobrinha que preparassem o funeral, pois o óbito era questão de horas. Mas, no dia seguinte ela ali estava sentada e rindo.

Como minha família não compactua com minha fé, fiz todas as obrigações sem saberem, e através de muito pedido aos pés de Oxalá, eis que mamãe está melhor a cada dia. Eu mesmo, estive internado em Novembro de 2012, em um hospital do Rio com AVE, (mal de família) e foi aquele alvoroço. Achavam que eu não iria sobreviver, aqui estou traçando mais essas linhas.

Milagre? Sim! Inúmeros foram os pedidos, e inúmeras as obrigações. Mas, foi somente o milagre? Não!
Em nenhum momento, o tratamento foi interrompido por causa da fé, ou sem seu nome. Estive em João Pessoa, para cuidar de uma senhora que estava para ir a óbito, devido a ser paciente renal crônica, diabética e hipertensa. Hoje ela anda, trabalha e faz todas as suas obrigações dentro de suas limitações, é claro.

Mas, o que me refiro com essas narrativas, é o fato de que, nunca nenhuma dessas pessoas, ou as que conheço, e estão bem, suspenderam seus tratamentos em nome de uma religião. A fé como disse, é de grande importância em momentos como esse, mas, a medicina e seus recursos, são insubstituíveis para o tratamento de nosso corpo. Sempre que temos um problema de saúde devemos sim, recorrer ao Orixá, mas o tratamento médico, esse não pode de forma alguma ser negligenciado.

Quem nunca deu uma receita de um “trabalhinho” que viu dar resultado, ou de um medicamento que sabe ser bom para o que a pessoa sente? Mas isso é um erro desmedido.

Se temos um problema a ser cuidado no plano espiritual, devemos buscar uma pessoa séria e que saiba o que está fazendo, e não sair feito papagaio de pirata, repetindo o que vimos ser dito e feito. O mesmo acontece com medicamentos. Se temos algo, busquemos um profissional FORMADO, para que possa diagnosticar o que sentimos e então, termos o medicamento correto. Medicamento, é como trabalho de santo: o que é bom para uns, pode ser prejudicial para outros.

Não temos o direito em hipótese alguma de substituir o recurso medicinal, por uma obrigação ou simpatia. Isso é crime e deve sim, ser punido com todos os rigores da lei. O curandeirismo é crime previsto no código penal. Temos o direito te intervir com obrigações? Sim! Mas a medicina é algo sagrado e que deve ser levada à sério. Tenho clientes médicos, fisioterapeutas, e todos ficam abismados em ver, como me comporto perante a esse assunto. Pois que, sempre se veem às voltas com o fanatismo religioso, que tenta suplantar os recursos da medicina. Não passam de ignorantes quem assim age. O próprio Cristo disse: “a matéria cuida da matéria, e o espírito cuida do espírito”.

A medicina foi deixada aqui por Deus, como tudo que existe, e se não fosse ela necessária não existiria. Temos que encarar que medicina, é sim, um sacerdócio, e para mim, é tão sagrada quantos meus instrumentos litúrgicos. Quem de nós, sacerdotes, tem o conhecimento para, por exemplo, deitar uma pessoa, coloca-la para dormir, abrir seu corpo, e depois costura-lo e a pessoa continuar viva? Eu ao menos não o tenho. Se a medicina não fosse necessária, se a fé a tudo substituísse, por que então, sacerdotes ficam doentes e morrem? A resposta é simples: somos constituídos de carne, osso e sangue, e consequentemente somos sensíveis e passiveis de adoecer e morrer!

Depois de meu AVE, tenho tratamento regular com médicos, tenho um filho de santo que é fisioterapeuta, e na hora das sessões, o Pai Mutaloiá não está presente, nem mesmo o filho de santo. Ali estão apenas o paciente Sérgio e seu fisioterapeuta Dr. Mário. E tem que ser assim.

Não podemos negligenciar nosso corpo, pois é suicídio e pagaremos caro por isso. Muitas pessoas me ligam, me escrevem relatando doenças, minha primeira pergunta é: O QUE DISSE O MÉDICO? Oras, tem que ser assim! Não possuo formação acadêmica e mesmo que assim o fosse, teria que respeitar a opinião do colega!

Cuidar de nosso corpo, é antes de tudo, cuidar de nosso espírito e de nosso Orixá e Guias, pois que, precisam que nossa matéria esteja bem, para que possam agir em favor nosso, e de todos que precisam.

Outra coisa que muito incomoda os sacerdotes sérios, é a questão de guia beber quando o médium toma medicamentos. Está errado! Certa vez, conversando com uma médica, a Dr.ª Juanita, leia-se Ruanita, ela me disse: pai, por mais que a pessoa esteja incorporada, o medicamento está agindo na matéria e não na entidade e a bebida vai, sim, prejudicar o paciente, pois temos recebido constantemente nos hospitais, pessoas com choque devido a associação de remédios e bebidas ingeridas por suas entidades. Mas, veja bem pai: não digo que são entidades mentirosas não. Ao contrário, são pessoas sérias e que possuem incorporação verdadeira, mas esquecem-se de que o espírito está em uma matéria e sendo assim, tem que haver o respeito pelos medicamentos que ingeriu.

Tenho uma filha de santo, que também é minha advogada, Drª Rita, ela tanto representa-me como advogada de pessoa física, quanto é assessora jurídica de minha empresa e ela certa vez me disse: “Pai, fico orgulhosa de seu Exú, o Sr. Meia Noite, pois vi e comprovei o quanto ele é exú de verdade, mas ele respeita seus medicamentos, e não fica por aí bebendo como um louco”. Isso me deu muito orgulho, pois, que, vemos aí uma entidade que respeita a matéria que ocupa.

Tenho uma amiga no Espírito Santo, que recebe Maria Mulambo. Mas essa minha amiga toma vários medicamentos, e suas entidades, inclusive Dª Mulambo, não bebe de forma alguma. Então me vem a pergunta: por que certas entidades têm tanta necessidade de se mostrar, agindo diferente? E a resposta não poderia ser outra infelizmente: não é a entidade, mas a matéria que deseja ser mais que os outros. A entidade não tem orgulho, soberba, não precisa mostrar para os outros quem ela é, pois isso as pessoas verão por si só na realização de tabalhos. E também a falta de cultura influencia muito nesses casos.

Queridos, temos o direito de praticar nossa religião, mas temos a obrigação de zelar por nosso corpo, pois ele é um instrumento que é utilizado constantemente por nossas deidades. Não ajamos então, por impulso, mas sim, tenhamos a consciência e a decência de sermos modestos e respeitar os limites que a Natureza nos impõe.

Sermos bom sacerdotes, é antes de tudo, sermos bons filhos de santo e para isso, s[o tem uma forma: agirmos com humildade, cautela e respeito por todos e principalmente de nosso corpo.

Mens sana in corpore sano ("uma mente sã num corpo são")

“orandum est ut sit mens sana in corpore sano.
fortem posce animum mortis terrore carentem,
qui spatium uitae extremum inter munera ponat
naturae, qui ferre queat quoscumque labores,
nesciat irasci, cupiat nihil et potiores
Herculis aerumnas credat saeuosque labores
et uenere et cenis et pluma Sardanapalli.
monstro quod ipse tibi possis dare; semita certe
tranquillae per uirtutem patet unica uitae.
(10.356-64)

              Deve-se pedir em oração que a mente seja sã num corpo são.
Peça uma alma corajosa que careça do temor da morte,
que ponha a longevidade em último lugar entre as bênçãos da natureza,
que suporte qualquer tipo de labores,
desconheça a ira, nada cobice e creia mais
nos labores selvagens de Hércules do que
nas satisfações, nos banquetes e camas de plumas de um rei oriental.
Revelarei aquilo que podes dar a ti próprio;
Certamente, o único caminho de uma vida tranquila passa pela virtude.”
           
            AUTOR: Décimo Júnio Juvenal (em latim Decimus Iunius Iuvenalis; Aquino, entre 55 e 60Roma, depois de 127), foi um poeta e retórico romano, autor das Sátiras.

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