foxyform

Contador de visitas

contador grátis

sexta-feira, dezembro 21, 2007

HOMENAGEM PÓSTUMA

Hoje venho a público homenagear um dos maiores zeladores que já vi em minha vida.

Há um ano deixou este mundo e transladou-se de volta ao Orúm, a chamado de Olorúm e de Yemanjá. Com certeza sua vida foi feita de erros e acertos como a de qualquer outro ser humano, mas em seu coração residia a bondade e a vontade de acertar acima de tudo.

Tive o privilégio de conhecer esse homem que mesmo com todos os intempéries da vida, as traições que sofria por parte de seus demais filhos e até mesmo de amigos, nunca negou uma palavra de conforto, carinho e socorro a quem o procurasse. Inteligente por excelência, sempre encontrava uma forma de ajudar àqueles que não dispunham de nada, pois era capaz até mesmo de criar situações nas quais o orixá ficava plenamente satisfeito com o vivente.

Homem, pai, conselheiro, mas acima de tudo AMIGO. Era aquele amigo certo das horas incertas. Sua partida deixou corações trincados, deixou uma sensação de vazio que a muitos atormenta, e eu sou uma dessas pessoas.

Falo aqui de meu saudoso zelador Almir Amorim, Fomo de Yemanjá Ogunté. Foi um baluarte em sua nação, Gêge, cumpriu rigorosamente com todas as vontades de Yemanjá e de todos os orixás que necessitassem de sua interferência.

Sempre zeloso e atencioso com os preceitos dos antepassados, mostrou a todos que cuidou, que a única forma de conseguirmos todos os êxitos em nossa vida, é amando à Deus e aos nossos orixás de forma incondicional.

Doté, você foi meu maior exemplo de amor e dedicação aos orixás, muito aprendi contigo, mas hoje, hoje somente a saudade ocupa seu lugar aqui na terra.

De forma alguma sou infeliz, pois sabemos que a morte não existe e que um dia nos reencontraremos e assim poderemos gozar da paz que somente Olorúm pode nos proporcionar. Se choro por ti? Claro! Afinal sou ser humano e como tal, falho e cheio de imperfeições, mas a certeza de que um dia nos encontraremos me conforta o coração e acalma-me o espírito.

Hoje se encontra nos domínios de minha mãe Yemanjá e com ela tenho certeza de que estás ajudando àqueles que lhe foram amados na terra e amparando aqueles que se negam a enxergar a verdade acima de tudo.

Amei-te um dia e o amarei para sempre.

Nunca tive nesse homem um sacerdote apenas, mas meu verdadeiro e melhor amigo. Era meu único confidente, aquele que levou consigo segredos que jamais ousei contar a outras pessoas. Sempre me amparava em meus momentos de depressão e dizia: “MEU FILHO, A VIDA É ASSIM MESMO, CHEIA DE PROBLEMAS, MAS ELES SÃO NA VERDADE NOSSOS MAIORES ALIADOS, POIS QUE NOS AJUDAM A SUPERAR NOSSOS DEFEITOS E PROGREDIRMOS EM NOSSA ESCALADA NESTA TERRA E NO PLANO ESPIRITUAL”.

Ser filho deste valoroso sacerdote foi um presente que Olorúm, meu pai Odé e minha mãe Yemanjá me deram nessa vida. Hoje a tristeza toma conta de meu coração em vários momentos nesta vida. Mas o consolo que tenho é saber que se perdi um pai, ganhei um amigo no plano espiritual.

Doté siga em paz na certeza de que o amor que sentia por ti, está aqui em meu coração e jamais o esquecerei. Que minha mãe Yemanjá o ilumine em sua nova caminhada, que Olorúm o abençoe, e que sua nova jornada possa ser tão gloriosa quanto foi aqui na terra.

Saudades deste seu filho.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi, Odé Mutaloiá.

odemutaloia@pop.com.br

odemutaloia@hotmail.com


quinta-feira, dezembro 20, 2007

LEDO ENGANO

Constantemente vejo pessoas se intitularem, supremos nos assuntos dos Orixás, dizerem que fazem e acontecem com os conhecimentos que possuem. Ledo engano! Supremacia, somente em Deus nosso pai, e até mesmo nossos Orixás estão sujeitos a esta magnânima supremacia.

Ao se intitularem supremos nesses assuntos as pessoas se esquecem de que esses ensinamentos lhes foram passados porque seu orixá o escolheu para uma missão: ajudar a quem precise, sem distinção de raça, cor e credo.

Outrora, os mais antigos possuíam muito mais conhecimento que nós hoje em dia, e nunca soubemos de arrogância dentro deles. Ao contrário, em sua grande maioria eram pessoas humildes, sem leitura, e que se dedicavam exclusivamente a fazer o bem sem olhar a quem. Mesmo nos idos dos anos 80 tive a oportunidade de conviver com pessoas que mesmo tendo todo conhecimento, se mantinham na humildade e servidão aos orixás.

Se voltássemos a viver da mesma forma que eles, com certeza teríamos muito mais respeito das pessoas por nossa fé, e colocaríamos um ponto final em tanta intolerância com nossa classe.

Orixá é antes de tudo, humildade e servidão. A arrogância, soberba, e outros males desta estirpe, não condizem com suas leis e seus objetivos. Basta que olhemos à nossa volta e veremos inúmeras pessoas que tanto se intitularam os poderosos, que hoje estão derrotados por si mesmos.

Ao nos deixarmos influenciar por coisas assim, afastamo-nos dos caminhos e objetivos de nosso orixá que é justamente o nosso engrandecimento espiritual. Esquecemos de que estamos neste planeta apenas de passagem e que mais dia, menos dia retornaremos ao nosso verdadeiro lar e teremos que prestar contas de tudo que fizemos nessa vida. Será que estamos preparados para isso?

Vivamos em paz com nossa consciência, deixemos que as pessoas admirem nossas qualidades como sacerdotes, mas acima de tudo, não esqueçamos que magnânimo somente Deus nosso amado e eterno Pai.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi Odé Mutaloiá, Babalorixá, Escritor e Pesquisador.

Contatos:

odemutaloia@pop.com.br

odemutaloia@hotmail.com

domingo, dezembro 16, 2007

A DESVALORIZAÇÃO DE NOSSA FÉ E DE NOSSOS ANCESTRAIS

Cada dia que passa mais me choca as formas errôneas como é praticada essa religião tão linda que nossos antepassados aqui deixaram como legado para nós, seus descendentes independente de cor e raça.

Sempre encontramos notícias que denigrem nosso nome e nossa fé. Ainda esta semana, mais precisamente sexta-feira, dia 15 de Dezembro, foi veiculada no Jornal Nacional, a notícia de um assassinato de uma criança, e a mulher que cometeu tal barbaridade, disse que havia matado aquele ANJO, em um ritual de magia negra, a mando de uma mãe de santo, com a finalidade de que ela pudesse engravidar.

Enoja-me tal situação, pois todos que praticamos um Candomblé sério e verdadeiro sabemos que uma vida, ainda que seja de nosso pior inimigo, é intocável, ainda mais se tratando de uma criança, um ser totalmente inocente.

Em parte, as federações têm uma culpabilidade grande nessas atrocidades, pois antigamente éramos sabatinados sem misericórdia quando pretendíamos abrir um terreiro, e depois de concedido o alvará, éramos fiscalizados de perto e com rigor. Mas hoje, bem, hoje as federações em sua maioria, se preocupam apenas com as anuidades que temos que pagar, não estão nem aí se esse ou aquele sacerdote está em condições de manter sua casa aberta,e pasmem:
MUITAS VEZES AS PESSOAS CONSEGUEM ALVARÁ SEM MESMO SEREM FEITAS OU TEREM TEMPO HÁBIL PARA TAL EXERCÍCIO.

Em um caso como esse, deveria a federação, e espero que esteja acontecendo, averiguar os antecedentes desta sacerdotisa (?) e encaminhar ao ministério público, caso seja real a informação, um processo para que esta casa fosse fechada permanentemente e que esta pessoa fosse presa.

Acredito também que deveria haver uma investigação paralela da federação local, a fim de averiguar se essa pessoa realmente deu esse tipo de orientação, pois que é muito fácil fazermos besteira e colocarmos a culpa em alguém. E se isso aconteceu que sejam tomadas medidas muito sérias.

Agora me pergunto: mãe de santo? NUNCA! Mãe do capeta, do cão, ou até mesmo dos quintos dos infernos completos, pois um verdadeiro sacerdote jamais faria uma coisa dessas!

Estas coisas enojam a todos que praticamos uma religião de forma séria e coerente. Temos que acordar pra vida, descermos de nossos altares ridículos que nos colocamos em alguns casos, e enxergarmos que estamos contribuindo com nosso silêncio para que pessoas que JAMAIS foram sacerdotes, denigram nosso nome e de nossa religião.

Enquanto medidas sérias não forem tomadas, esses horrores continuarão acontecendo e cada vez mais seremos pratos cheios servidos nos banquetes da intolerância que sofremos por parte de outras religiões.

Vamos dar um basta nisso tudo, levantemo-nos em prol de nossa fé, antes que ela sucumba diante de tantas atrocidades e mentiras!

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi, Odé Mutaloiá. Babalorixá, Escritor e pesquisador.

odemutaloia@hotmail.com

odemutaloia@pop.com.br

sexta-feira, novembro 23, 2007

SAUDOSOS TEMPOS

Lembro-me com freqüência dos tempos em que vivia na roça de Mametú Indembelouí, quem me iniciou na ciência do culto aos Orixás. Lembro-me de seus ensinamentos que eram passados a mim e aos meus irmãos, como gotas de água em um oceano, ou seja, aos poucos.

Hoje em dia, as pessoas ao pretenderem adentrar no culto, já nos chegam com uma ânsia de poder que jamais imaginei ver. E o que mais dói, é que essa ânsia é em ter poder para destruir a vida dos outros. Já outras pessoas já nos chegam com tanta vontade de saber, mas, sem se preocuparem se estão prontos ou não para adquirirem tais conhecimentos. E isso vem fazendo com que nossa religião cada vez mais tenha pessoas totalmente despreparadas para exercerem o sacerdócio.

Com saudades me lembro também de como eram feitas as coisas do santo dentro daquela casa. Por exemplo, se íamos apanhar ervar para fazer o abô, em primeiro lugar eram escolhidas as pessoas que participariam daquela cerimônia. Essas pessoas se resguardavam dentro da casa de santo, três dias antes do ritual, a fim de se purificarem de relações sexuais e uso de bebidas alcoólicas.

No dia do ritual, saíamos em jejum, e antes do sol nascer, levávamos oferendas para Agué, e após os ritos na entrada da mata, entrávamos nela e sem conversar íamos apanhando as folhas, ao som de cânticos e reza para as divindades. Íamos e voltávamos em silêncio, sendo que o mesmo só era quebrado pelo som das rezas e cantigas.

Após a colheita das INSABAS, retornávamos ao barracão e ali, em uma esteira previamente preparada, depositávamos as insabas e somente depois é que íamos ter direito ao café, um cigarrinho (escondido) para quem fumasse etc. e tal. Na caída da noite, após as ervas estarem plenamente descansadas da colheita e transporte, é que começávamos o preparo o banho de abô que serviria para purificar não somente aos filhos da casa, mas, a todos que necessitassem.

Hoje em dia, ao saírem para a colheita de ervas, sejam para o abô ou para a feitura de um Yawô, as pessoas mais parecem que vão para uma festa, tamanha a algazarra que fazem dentro e fora da mata.

Ao dar início ao preparo das comidas de santo, ou mesmo de ebó, jamais existia conversas na cozinha, as únicas palavras pronunciadas eram as rezas necessárias para aquele ritual. Já tive a oportunidade de ver em uma cozinha de santo, rádio tocando como se estivessem preparando qualquer coisa, menos comida a ser servida aos nossos Deuses.

Realmente, saudosos aqueles tempos, nos quais se faziam fundamentos de santo e não brincadeiras como se vê hoje em dia. E isso sem relatar o comportamento dos iniciados de hoje, que nada se parecem com os de outrora.

Será que estariam nossos orixás satisfeitos com essas mudanças em seus rituais? Creio que não, pois que me foi ensinado que candomblé é hierarquia e ancestralidade, assim sendo, jamais essas atitudes condizem com nossos antepassados que aqui viveram e deram suas vidas para que pudéssemos ter essa religião que tanto tem feito por quem a procure.

Se pudesse voltar ao tempo, com certeza seria muito mais feliz, pois teria a chance de ainda assistir a fundamentos ou ORÔS como chamamos, que nunca mais serão vistos na maioria das casas de santo deste milênio.

Sérgio Silveira, Tatetú “Inkisi Lambanranguange, Odé Mutaloiá”.

odemutaloia@hotmail.com

domingo, novembro 18, 2007

DISCRIMINAÇÃO CONTRA COR É CRIME, MAS, E CONTRA A RELIGIÃO?


Nos dias atuais muito temos visto em redes de televisão, jornais, rádios e na Internet, campanhas contra a discriminação e o preconceito racial. Políticos fazem barulho até demais, mostrando que em um país como o nosso é intolerável este ato horrendo. Mesmo entidades que se dignam a lutar pelos direitos dos negros, investem alto no combate a estes atos que realmente NÃO CONDIZEM COM O MUNDO ATUAL EM QUE VIVEMOS.

Mas, me pergunto apenas, o porquê de nós, praticantes do Candomblé, ÚNICA RELIGIÃO QUE ESSES MESMOS NEGROS, trouxeram para o Brasil, somos perseguidos e nem políticos nem ninguém tem coragem de mostrar a cara e defender nossos direitos. Até mesmo negros, nos condenam por serem membros de outra religião.

Será que discriminar a religião que os negros plantaram aqui no Brasil, não poderia ser incorporado na lei que combate a discriminação racial? Em meu ver sim. Pois da mesma forma que todos, pagamos impostos, votamos, mas ninguém coloca nossos direitos na cara de pastores que manipulam seus fiéis, jogando-os contra nós e nossa fé.

Até mesmo ex sacerdotisas (seriam mesmo sacerdotisas?) vão a programas de televisão se intitulando EX MÃE DE ENCOSTO, e falam o que querem, denigrem nossa imagem, nossa religião e os governos nada fazem para coibir essa coisa ridícula. Mas basta chegar o período eleitoral e lá vêm eles, nos chamando para pedir votos, mentindo descaradamente que são contra essa prática, e nós bobos damos nosso voto a eles. Se o que dizem é verdade, por que então que ao nos apresentarmos nas Assembléias Legislativas como praticantes desta religião, nunca conseguimos nada?

Concordo em grau gênero e número com o combate a discriminação racial, ou seja lá quaisquer que forem, mas penso que temos nossos direitos e que eles deveriam sim, serem respeitados e que as entidades de consciência negra deveriam olhar com mais atenção. Ou será que esses mesmos negros que aqui chegaram em navios negreiros, não trouxeram esta religião? Seria ela por acaso fundada aqui pelos europeus? Com certeza que não.

Somente me pergunto se em breve não seremos queimados em praça pública, a exemplo do que faziam os padres com os negros que não se rendiam a religião por eles imposta.

Amor e tolerância não deveriam ser os lemas principais de qualquer religioso? Creio que sim, mas, o que vemos é totalmente contrário a tudo isso. Quem de nós nunca foi constrangido tão somente por causa de nossa opção religiosa?


Temos que nos empenhar mais como religiosos, em exigir que os governos obriguem a respeitarem-nos, afinal na Carta dos Direitos Humanos da ONU, e até mesmo em nossa constituição, rezam o direito a livre prática religiosa. Sinceramente, acho muita mesquinharia tanto barulho por conta da discriminação racial, e a plena tolerância com a discriminação religiosa.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi Lambanranguange: Odé Mutaloiá. Babalorixá, Escritor e Pesquisador.

odemutaloia@hotmail.com

odemutaloia@pop.com.br


sexta-feira, novembro 09, 2007

QUAL NOSSO ERRO?

A cada dia que passa mais me assusta a situação na qual nos encontramos como praticantes das religiões afro-descedente. Temos sido massacrados dia após dia, sem que nada seja feito realmente por parte de nossos representantes, para coibir tais males que tanto denigrem o nome de nosso país.

As igrejas evangélicas, vêm se destacando cada vez mais, pela prática de denegrir nosso nome, nossa fé. Basta que assistamos a seus programas de televisão para termos consciência de tal situação. Ainda outro dia, se não me falha a memória, Quarta Feira, dia 7 de Novembro, estava a procurar algo interessante nos canais de t.v quando deparei-me com uma senhora que se dizia EX MÃE DE SANTO, ou melhor, EX MÃE DE ENCOSTO, relatando fatos que com certeza jamais existiram em casas de verdadeira fé e culto aos nossos ante passados.

Segundo ela, “O ENCOSTO QUE NELA SE MANIFESTAVA, ENGANAVA AS PESSOAS, POIS PEDIA MATERIAIS E DINHEIRO PARA RESOLVER ALGO, MAS QUANDO O SERVIÇO NÃO DAVA RESULTADO, ELES PEDIAM VALORES CADA VEZ MAIS ALTOS, LEVANDO A PESSOA A GASTAR CADA VEZ MAIS SEM QUE NADA FOSSE RESOLVIDO”.

Queridos, dentro de minha vida espiritual, mesmo antes de me tornar sacerdote, nunca vi em casas sérias, espíritos que pedissem quantias em dinheiro para resolverem os problemas dos consulentes. Vi sim, pedirem materiais, e indicarem que a pessoa conversasse com seu médium, quando era um serviço mais complicado para saber se ele cobraria por tal, e se assim fosse, as pessoas JAMAIS tinham que gastar exorbitâncias alguma.

Só me pergunto se esta senhora realmente foi algum dia uma Zeladora mesmo, pois que ao que parece, era dessas pessoas que usam de má fé, e quando são descobertas pelas pessoas que freqüentavam suas casas, simplesmente saem da religião e começam a se dedicarem a difamar a anterior.

Tenho visto até mesmo filhos que simplesmente ignoram seus pais biológicos, quando estes praticam o candomblé ou umbanda, e eles, os filhos são freqüentadores de igrejas evangélicas. Seria isso uma prática condizente com quem se diz seguidor da doutrina de Jesus Cristo?

Posso afirmar que essa prática em nada condiz com as normas de Cristo, uma vez que ele pregou a união entre todos sem discriminação, pregou a tolerância e pediu: “faça a teu próximo somente aquilo que gostaria que ele lhe fizesse”. Vemos nesta passagem a maior clareza de amor e pedido de perdão e tolerância entre a humanidade em geral.

A revolta vem crescendo dentro de muitos praticantes de nossa religião e isso pode culminar com ações gigantescas na justiça, basta para isso que nos unamos independente de sermos ou não de nações semelhantes de candomblé, se somos umbandistas somente ou não. Temos que nos conscientizar de que antes de tudo somos irmão de fé, e se juntarmos nossas forças poderemos sim, exigir na justiça que nos respeitem em nossa crença, pois que vivemos em um país livre e a constituição e até mesmo a carta dos direitos humanos da ONU, garantem a todos o direito de professar sua fé sem sofrerem qualquer tipo de constrangimento ou impedimento.

Afinal o que fizemos de tão grave contra essas igrejas e seus sacerdotes? Qual nosso erro? Nunca queimamos pessoas em fogueiras, não saímos por aí invadindo templos cristãos, não patrocinamos guerra a fim de ficarmos com parte do botim. O que fizemos para sofrer tanto na mão dessas pessoas que se dizem seguidores de Cristo, mas que agem como se fossem Pôncius Pilatos ou seus carrascos?

Unamos-nos irmãos antes que eles, os verdadeiros FALSOS PROFETAS, culminem por transportarem-se e a nós também em uma viagem no tempo, e retomem as fogueiras em praça pública.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi Lambanranguange: Odé Mutaloiá. Escritor, pesquisador e babalorixá.

odemutaloia@hotmail.com

odemutaloia@pop.com.br

segunda-feira, outubro 15, 2007

O DOCE SABOR DE SER INCIADO


Em tempos saudosos, os iniciados na doutrina e nos mistérios dos orixás, sentiam verdadeiro orgulho em serem chamados de Yawôs, de tomarem a benção aos mais antigos, como também em se referir a todos os zeladores e zeladoras, como seus pais e mães.

Mas o que acontece hoje em dia é no mínimo desastroso, pois os iniciados sentem vergonha de serem chamados de Yawôs, e até mesmo de se referirem aos mais velhos como seus pais e mães. Infelizmente isso reflete a péssima doutrina e exemplos que estes estão tendo em suas casas, local onde deveriam aprender com seus zeladores, a importância de um Mukuiu no Zambi, um Kolofé Olorúm, ou de um Motumbá Axé.

Estes zeladores estão mais tendenciosos às pompas do que aos preceitos de nossos antepassados. Mais buscam a soberba e o orgulho do que a humildade, um exemplo que nossos deuses tanto apreciam e amam.

Os antigos costumavam dizer que ser zelador é antes de tudo ser servidor de seu santo como dos santos de seus filhos. Nunca davam importância nem espaço para certos fatores que tanto denigrem a imagem de suas casas e de seus orixás.

Se bobearmos, somos agredidos por estes iniciados sem que seus orixás nada façam para coibir tanta arrogância e tanta soberba. Somos invadidos por pessoas que não levam em conta nosso tempo de santo, tão somente por se intitularem dofonos ou dofanitinhos deste ou daquele orixá. Mas, esquecem-se de que com certeza nosso Adôxo ou Oxú, possuem muito mais tempo que os seus.

Não valorizam as pessoas tão somente por serem de outro axé que não seja o seu. Mas, isso se deve especialmente à arrogância de seus sacerdotes que não sabem impor a doutrina e lei de nossos antepassados, o que com certeza os entristecem lá em seu mundo.

Faz-se necessário que esta doutrina de respeito e abnegação seja refeita antes que nossa fé sucumba em um mundo que em hipótese alguma condiz com esses seres maravilhosos que guardam e regem a natureza.

Sinto saudade dos tempos em que achávamos Doce o Sabor de sermos Iniciados e tínhamos orgulho em sermos chamados de Yawôs, pois sabíamos que um dia estaríamos sentados em nossas cadeiras de Ebomis, um direito que conquistaríamos com nossa humildade e amor e não comprando com dinheiro, ou seja, lá o que for.

Lembremo-nos sempre que orixá é amor e humildade e jamais soberba e orgulho.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi Lambanranguange, Odé Mutaloiá. Escritor, pesquisador, babalorixá e vice-presidente da UNESCAP, União Espírita capixaba, e membro de seu conselho sacerdotal.

Contatos:

odemutaloia@pop.com.br

odemutaloia@hotmail.com

quarta-feira, outubro 10, 2007

A NATUREZA E OS ORIXÁS


Muito tem nos chamado a atenção, o fato de ambientalistas e cientistas estarem diariamente nas emissoras de T.V nos mostrando os riscos que corremos com a destruição da natureza.

Este fato nos chama a atenção, pois que nossos Orixás dependem dela para que possam interagir em nossas vidas, aliviando assim muitos de nossos problemas.

É comum passarmos por uma encruzilhada e vermos papéis jogados no chão, com oferendas a Exú, outras vezes ao irmos a uma mata, encontramos sacolas as quais foram utilizadas para levar os carregos de clientes e filhos de santo. Essa concepção de despacho precisa urgentemente ser revista pos nós zeladores e por nossos filhos de santo.

Diz uma regra dos antigos, que as comidas de santo ao serem suspensas devem obrigatoriamente serem despachadas no rio, ou seja: levamos até lá as comidas em sacos, acendemos uma vela, batemos paó e despejamos as comidas nas águas, e levamos embora o saco utilizado.

Essas comidas eram despachadas nas águas, para que servissem de alimento aos peixes, garantindo assim o ciclo de reprodução e alimentação de todos os seres vivos. Se um dia quisermos almoçar um peixe, ali teríamos a certeza de o encontrarmos, pois aqueles alimentos ali despejados contribuíram para a subsistência dos mesmos.

Se por ventura fosse carrego de ebó, e seu destino fosse à mata, o mesmo era levado em sacos, e após adentrarmos a mata despejaríamos seu conteúdo, pois que além de alimentar os animais que ali residem, serviriam de adubo orgânico pra a terra.

Estas formas de despacho tão utilizadas nos dias atuais, nos preocupa, pelo fato da agressão à mãe natureza. Imaginemos por exemplo um encantamento de Odé ou Agué para ajudar alguém sem as matas que são sua morada. E o que dizer de nossa mãe Oxum? Como faríamos oferendas a ela sem os rios e cachoeiras que são seus domínios?

Este pensamento tem que ser levado em consideração por todos nós do candomblé e até mesmo da umbanda. Estamos matando a natureza, e consequentemente nos matando também.

Um outro fator, é que, se nossos orixás são governantes da natureza e parte integrantes dela, poderemos te-los ao nosso lado sem ela? Com certeza que não, pois estes seres encantados estão nos abandonando aos poucos porque ao destruirmos a natureza estamos destruindo seus segredos e mistérios.

Claro que não destruiremos nossos Deuses, mas eles com certeza nunca mais poderão nos ajudar sem os elementos indispensáveis aos seus cultos e obrigações.
Assim sendo irmãos, façamos uma reflexão sobre o que estamos fazendo com a natureza e conosco mesmo. Sejamos conscientes de nossas obrigações com nossos pais e mães e lembremos que uma delas é justamente a defesa do meio ambiente tão essencial para tudo que desejamos fazer neste planeta.

Claro que se temos meios de possuirmos um conforto, ele é válido, mas daí a levarmos a extinção nosso meio ambiente seria burrice concordam?

Lembremos também que corremos o risco de fazer com que nosso planeta se transforme em um planeta fantasma, sem qualquer tipo de vida, e posso garantir que em uma terra inóspita, nossos antepassados os orixás jamais poderão se comunicar conosco e trazer seu conforto e amparo tão essenciais para a solução de nossos problemas e sua ajuda para que sigamos com fé e amor nossa jornada.

NATUREZA VIVA É GARANTIA DE NOSSOS ORIXÁS JUNTOS DE NÓS!

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi Lambanranguange, Odé Mutaloiá. Babalorixá, escritor e pesquisador.

Contatos:

odemutaloia@hotmail.com

odemutaloia@pop.com.br

quinta-feira, setembro 20, 2007



Muito se fala em fé. Desde os tempos mais remotos ela acompanha o ser humano e na maioria das vezes, é o que o ajuda a caminhar em busca de melhoras para sua vida.

Claro que a fé é algo de mais maravilhoso e valoroso que possuímos, pois que ela nos faz termos a certeza, por exemplo, da existência de Deus nosso eterno pai, nos leva a entender dentro de nossos limites a existência, a magnitude deste ser tão poderoso que criou o universo.

Porém esta mesma fé torna-se arma a mais perigosa que já conhecemos. E este fato torna-se realidade pura e horrível, quando o homem possuído de sua ganância natural, a usa para mentir, enganar, submeter a terceiros, e no apogeu da crueldade, a matar seu semelhante.

Basta olharmos com atenção à história nossa, e veremos que muitas guerras foram criadas em nome da fé. Torna-se mais fácil exterminarmos aqueles que não compactuam com nossa fé, do que aceitar que a sua tem a mesma importância que a nossa.

Quantos reinos, culturas foram destruídas e os carrascos usaram o nome da fé em Deus? É comum encontrarmos relatos na história, de carnificinas ocorridas porque a fé que outros tinham em Deus não se mostrava da mesma forma que os míseros e falsos profetas diziam ser a correta.

Se Deus existe e temos a certeza de que sim, jamais desejaria que seu povo fosse assassinado em nome da fé que alguns dizem ter nele. Machuca ao vermos que sacerdotes usavam seu conhecimento para provocar intrigas que levavam a esses holocaustos terríveis.

Hoje em dia, porém, esta mesma forma errada de se ter fé ainda é praticada. Vemos sumos sacerdotes se alto proclamarem representantes de Cristo, anunciarem que sua fé é a única verdadeira, por se tratar da única deixada por nosso Senhor Jesus quando de sua passagem na terra. Mas, o que vemos mesmo, é utilizarem do nome sacrossanto de Nosso Senhor, para aplacar sua ânsia desenfreada por riquezas, muitas vezes não estando nem aí se seus seguidores têm com que alimentar suas famílias.

E essa maneira de se agir com relação a fé, é vista em todos os seguimentos religiosos e não apenas neste ou naquele. Quantos são sacrificados em suas economias de uma vida, devido à falsa promessa de terem um problema resolvido? Mas, infelizmente isso não se repercute apenas naquele sacerdote, mas sim, em toda a classe religiosa. É necessário extirparmos tais práticas de nosso meio se ainda desejamos sermos vistos como filhos de Deus e não como ladrões sujos que se aproveitam da boa fé alheia e buscam de todas as formas o enriquecimento ilícito.

Avante nossa fé verdadeira e amorosa. Façamos com que o santo nome de Deus nunca mais seja usado como base mentirosa para guerra e assassinatos frios.

O amor ao nosso semelhante ainda é a forma mais linda e gratificante, de mostrarmos a fé em Nosso Pai Celestial.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi Lambanranguange: Odé Mutaloiá. Babalorixá, escritor e pesquisador.

Contato:

segunda-feira, setembro 17, 2007

OBALUAYÊ


Peço licença a Zambi, a Oxalá e a todos os antepassados para falar um pouco deste maravilhoso Orixá. Muito difundido no Brasil, tanto no Candomblé como na Umbanda, porém muitas vezes incompreendido.

Conta sua lenda que ele nasceu da união entre Oxalá e Nanã Buruquê. Porém tinha uma doença grave, a lepra, o que o fez ser rejeitado por sua mãe que o abandonou no mato para que os bichos o comessem, uma vez que naquela época, esta doença era vista até mesmo como uma praga dos deuses e quem a tivesse, dificilmente seria curado. Aliás, nunca era curado, estava condenado à morte.

Ao ser abandonado no mato, começou a sentir fome e frio, e seu choro foi ouvido por Yemanjá que passava nas redondezas. Ela compadeceu-se dele e o levou para sua casa onde o tratou com folhas de bananeira curando suas feridas. Porém o tempo foi passando e ele já não mais aceitava o seio que sua mãe adotiva o oferecia, pois deseja comer.

Daí veio para ela uma questão difícil: com o que alimentar a criança? Então teve a idéia de apanhar um pouco de areia da praia e nela estourar um milho que existia fazendo o doburú, pipocas, que é seu alimento favorito até hoje.

Ao tomar a idade adolescente, como ainda tinha feridas horrendas em seu corpo, passou a se vestir do azê, espécie de roupa confeccionada com palha da costa. E assim andava por todos os lugares e as pessoas diziam que seu rosto era terrível de ser visto dado a sua doença, o que lhe revoltava.

Ele cresceu, tornou-se um grande guerreiro, caçador, feiticeiro, e descobriu os segredos da morte. Sua mãe biológica então, passou a sentir vontade de ver seu filho, mas ele a rejeitava, pois sabia de sua história. Yemanjá, sempre matriarca, amorosa, o aconselhava a aceitar sua mãe, pois ela o tinha parido. Ele dizia então que a única mãe que conhecia era ela, pois que o alimentou, e curou suas feridas horrendas.

Porém mesmo depois de crescido, não retirava aquela roupa de palha, o que fez com que Oyá, muito curiosa, esperasse atrás de umas árvores por onde ele passaria. Ao vê-lo se aproximando ela ordenou ao vento que soprasse com toda força possível, e este assim fez, levantando sua roupa e então Oyá contemplou o rosto mais lindo que já vira em sua vida.

Ele se revoltou.com sua atitude e depois de longa conversa fez com ela prometesse que não contaria para ninguém como ele era, pois se revoltava em saber da discriminação que sofria.

E assim foi se criando a história de um dos Orixás mais amados no panteão afro. Ao se trasladar de volta ao Orúm, Céu, ele foi incumbido por Olorúm, Deus, de ser o Orixá da varíola, da bexiga e de todas as doenças que atingiam e matavam os povos das várias nações africanas e do mundo.

E esta incumbência ele traz até os dias de hoje, sendo conhecido como o médico dos pobres. Muito embora seu poder seja ilimitado, sua humildade o distingue de todos os demais seres existentes. Não carrega nem suporta a soberba, é desapegado de bens materiais, pois sabe dos mistérios que envolvem a morte, porém jamais deixa um filho seu ou quem o cultue, passar por dificuldades. Sempre providenciando para que a pessoa tenha tudo àquilo que lhe é necessário a uma vida confortável.

A única coisa que pede em troca, é que a pessoa por ele agraciada, não deixe de atender a quem passe por privações independente de qualquer coisa. Sua vestimenta espelha bem sua humildade: enquanto outros orixás se vestem com luxo, dado aos elementos por eles governados, este maravilhoso orixá, veste-se até os dias de hoje com palha da costa, usa guizos, e sua comida preferida é o doburú, pipoca feita na areia.

Seu nome quando traduzido mostra toda a sua importância e magnitude: Obá – Rei, Ilú – Céu, Ayê – Terra. Ou seja: Rei do Céu e da Terra. Mas a humildade que expressa é muito mais elevada que qualquer ato cerimonial ou até mesmo os títulos que recebeu de Olorúm, Deus.

É comum nos terreiros de Candomblé, as festas em sua homenagem. E a principal delas é o Olubajé. Olú, aquele que, Ba, aceita Jé, comer. Aquele que aceita comer. Nesta festa são servidas todas as suas comidas, juntamente com as comidas de seu irmão Oxum Marê.

Mas, é comum nos candomblés, serem oferecidos presentes para ele toda segunda feira, que é seu dia, a fim de pedir que ele ajude tanto ao zelador da casa quanto aos filhos e demais clientes que ali freqüentam. Alguns fazem o tabuleiro de Obaluyê, par descarregar a casa e abrir caminhos, outros optam por uma cerimônia simples na qual apenas ofertam seu doburú e de joelhos pedem por todos.

Também é deveras invocado quando existe algum problema de doença, feitiço ou mesmo praga em alguém. Senhor da desintegração, governante dos cemitérios, local que passou parte de sua vida estudando este mistério e também onde teve contato com seu antecessor, Omulú, é o responsável por nossas almas e tem na morte sua regência maior, porque existe a necessidade de morrer um para nascer outro, garantindo assim a continuação de nossa espécie.

Sua cor é, vermelho, preto e branco. Sua comida é o doburú, feijão preto cozido, acarajé, frutas, peixe, e seu sacrifico é de cabrito, em algumas casas porco, frangos, pombo, pato e galinha de angola.

Sempre que precisamos dele, ali está, pronto a nos socorrer e nos purificar tanto das doenças quanto de feitiços, pragas, perseguição de egum, e outros males que afligem tanto nosso corpo material como o espiritual.

Louvemos este senhor com a mesma humildade que ele tanto pratica. Mas nos lembremos de sua suma importância no panteão afro, e de sua magnitude entre os nossos antepassados.

ATOTÔ AJUBERÚ, BALÉ, BALÉ.

MISERICÓRDIA DE NÓS MEU PAI!

Texto de Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi Lambanranguange, Odé Mutaloiá. Escritor, pesquisador e babalorixá.