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quinta-feira, junho 03, 2010

YÁ LAXÉ

Como todos sabemos, uma casa de Candomblé se faz com vários postos, que são o sustentáculo da mesma. Além do zelador de santo, existem outras pessoas que contribuem com a administração dos templos, fazendo com que o sumo sacerdote, apenas se ocupe dos assuntos nos quais sua interferência seja imprescindível.

Hoje vamos falar um pouco do Posto de Yá Laxé.

O nome Yá Laxé, se traduz como: Mãe do Axé ou Mãe da Casa de Axé. Esse posto como os demais, é escolhido para uma determinada pessoa, de conformidade com o Orixá Regente da casa. Ele através de búzios ou mesmo durante uma festa ou algum evento íntimo escolhe a pessoa que deverá ocupar o cargo, no caso, de Yá Laxé.

Após algum tempo frequentando a casa,a mulher é escolhida para o cargo. Após ser suspensa ou apontada para o mesmo, ela deverá passar por um bori, e posteriormente para a feitura, para que tenha condições de exercer sua função. Algumas optam diretamente pela feitura, dependendo das condições financeiras do momento, pois com o cargo para o qual foi escolhida, caberá ao zelador, arcar com todas as despesas.

Como os demais cargos de uma casa de santo, essa mulher é muito respeitada tanto pelos Yawôs como também pelos outros que possuem cargo ou ainda por aqueles que são ebomis, ou seja: têm a obrigação de sete anos. Mas, seu respeito não se restringe àquela casa, ela deverá ser respeitada onde for, pois possui um cargo sacerdotal dado por um Orixá.

A função da Yá Laxé é de muita importância, pois é ela quem supervisiona as oferendas para os Orixás, como também, é incumbida de zelar pelos assentamentos pertencentes à casa de santo. Não os assentamentos dos filhos, mas o que fazem parte do carrego do zelador ou mesmo os Orixás que são da casa, ou seja: pertencem à casa de santo.

Como uma Ekédi, a Yá Laxé não roda de santo. Ou seja: ela não se incorpora com Orixá nem mesmo com guias de Umbanda, porque durante um ritual, é ela quem auxilia o sacerdote, quem coordena a preparação das comidas que serão ofertadas e ainda, coordena toda a preparação da “roça” para a festa que será realizada.

Dentro de uma casa de Candomblé, a Yá Laxé, somente deve obediência ao santo do zelador, e anda de acordo com o sacerdote, garantindo assim, que tudo esteja em perfeita harmonia na casa do santo.

Nada em uma casa de Candomblé se faz sem que a Yá Laxé participe ou mesmo, na ausência do zelador, sem que ela autorize. Até porque, o Orixá do zelador, quando incorporado, apontou aquela pessoa para o cargo, e a incumbiu de zelar pelo seu assentamento de forma direta. Nesse caso ela passou a ser mãe daquele Orixá, e assim sendo, até mesmo o zelador deve obediência a ela.

No caso de iniciação para esse cargo, a exemplo do que acontece com o Ogã e Ekédi do Orixá regente de um templo, não é o zelador da casa quem inicia a pessoa, mas o seu zelador, ou zeladora, pois como uma Ekédi, ela passará a ser mãe daquela divindade. Será uma espécie de sacerdotisa a qual deverá ser respeitada por todos daquele templo. Se por ventura ela não for respeitada pelo zelador, este corre o risco de ser punido por seu Orixá, pois como seu filho, está desrespeitando uma ordem direta sua, afinal, se ela foi escolhida para aquele posto, é tão somente porque seu santo a escolheu de acordo com as determinações de Orumilá, ou seja: Deus.

Devemos respeitar todos os cargos hierárquicos dentro de um templo, pois são eles que não somente garantirão o funcionamento do mesmo, mas, farão com que o templo esteja aberto e funcionando mesmo após a morte de seu sumo sacerdote.

Compete a Yá Laxé juntamente com um determinado ogã ou ainda com uma ekédi, promover o ossé dos santos, tanto os que são da cabeça do sacerdote, como aqueles que são os santos da casa, ou seja, os santos que garantem a existência e funcionalidade do templo.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi; Odé Mutaloiá.







terça-feira, junho 01, 2010

O QUE É MACUMBA?

É comum vermos pessoas leigas, e que são manipuladas por sacerdotes das religiões cristãs, se referirem ao Candomblé e à Umbanda como Macumba. Os sacerdotes usam esse termo para humilhar e desacreditar as religiões afrodescendentes.

Macumba não se trata de religião, mas sim de um instrumento musical que era usado desde tempos remotos.

Encontramos a tradução para essas palavras em alguns dicionários e neles a palavra se traduz como um Instrumento Musical, um tipo de reco-reco, que era utilizado na África desde os tempos mais remotos. Esse instrumento produz um som rascante, ou seja: um som áspero, semelhante ao que produz o diamante ao cortar o vidro, ou ainda parecido com um tecido que se rasga. A pessoa que toca esse instrumento é chamada de Macumbeiro.

O termo pejorativo macumba, surgiu segundo historiadores, com João Paulo Emílio Cristovão dos Santos Barreto, mais conhecido como João do Rio, que viveu no Rio de Janeiro no período de 1881 a 1921, escreveu sobre os negros e seus cultos no Rio de Janeiro. Segundo esse escritor, “as seitas de origem africanas no Rio eram chamadas de Candomblés assim como na Bahia”. Porém o preconceito sempre falou mais alto, e a burguesia da época, denominou esses cultos de “macumbas”, devido aos toques dos tambores e demais instrumentos musicais utilizados.

Podemos ver assim que: nunca a palavra macumba se traduziu como religião verdadeiramente e que somente pessoas sem cultura alguma, que são mais facilmente manipuladas traduzem esse termo de forma tão grotesca e mesquinha.

Algumas pesquisas na história do Brasil nos mostram que apesar de muitos donos e senhores de escravos procurarem seus cativos a fim de receber “favores” de suas divindades, desprezavam depois os mesmos, dizendo que eram eles adoradores de satanás.

O que ainda encontramos nos dias de hoje, quando pessoas de classe elevada buscam nos Terreiros de Candomblé, solução para seus mais variados problemas e que depois de atendidos, proclamam-se aos quatro cantos, contrários a essa religião.

Isso acontece por que, como no tempo do cativeiro, a igreja ainda é predominante em nosso meio e para que possam manter seus fiéis submissos, ameaçam com o fogo eterno todos que não compactuam com seus princípios e isso traz medo aos seguidores.

Ter uma religião africana como fonte de referência, não faz em hipótese alguma daquela pessoa um ser que compactue com forças do mal, ao contrário, muitos dos seguidores dessas religiões têm muito mais medo da ira Divina do que se possa imaginar, uma vez que temem até mesmo a palavras que saem de suas bocas, pois as mesmas são verdadeiras orações e uma vez soltas, não voltam atrás.

Sérgio Sillveira, Tatetú N'Inkisi: Odé Mutaloiá






quarta-feira, maio 26, 2010

A FÉ SE PROVA NAS MAIORES DIFICULDADES

A fé é algo que muitos propagam, mas poucos a possuem de fato. Entre minhas jornadas como zelador de Orixá, encontrei pessoas que proclamavam fé aos quatro cantos, juravam uma fidelidade máxima e perpétua ao Santo, diziam que sempre estariam com seu coração voltado para o Axé Orixá e que nada os faria mudar sua opinião.

Mas, confesso que bem poucos encontrei que realmente tinham a tal fé professada. O problema é que a maioria das pessoas têm a fé enquanto estão com dinheiro no bolso, quando se encontram sem maiores dificuldades. Mas, basta à vida impor um daqueles momentos difíceis aos quais todos nós estamos sujeitos, e vemos a fé desmoronar, como uma barreira sob forte chuva.

São pessoas que na verdade nunca tiveram fé real, que apenas professavam as palavras sem o mínimo de noção do que é ter fé. Muitas vezes a vida nos impõe coisas que nem mesmo os Orixás podem retirar. Aparecem-nos obstáculos que por mais que um zelador intervenha, a dificuldade parece só aumentar.

Nesse momento é que temos que provar nossa fé realmente. Deus em sua infinita sabedoria nos põe a prova milhares de vezes em nossa vida. Nos testa, deixa-nos sofrer, e nesse momento achamos injusto tanta dor, tanta dificuldade, pois, demos tudo que o Orixá pediu, e ainda assim sofremos as intempéries da vida!

Achamos injusto porque na verdade, nunca estivemos prontos para as dificuldades, porque achamos que com nossas obrigações dadas, simplesmente nossa vida seria mais fácil. Aí, justamente nesse momento é que colocamos tudo a perder. Não encaramos que somos antes de tudo, seres humanos e como tal, sujeitos a todos os tipos de mazelas.

Temos que aprender a encarar nossa religião, como religião somente e não como uma varinha mágica que a tudo transformará. Se temos uma fé convicta, nada nesse mundo nos abalará e por mais que estejamos sofrendo, aí sim, é que nos voltaremos cada vez mais para o Santo.

Nos momentos difíceis é que temos que nos encontrar com toda a fé que professamos, que temos que demonstrar o amor por Deus, por nosso Santo, por nossos Guias, e até mesmo pelas pessoas, afinal amar sem dificuldades, qualquer um é capaz.

Nunca soube que em toda a história do candomblé ou da Umbanda, ou de qualquer outro seguimento das religiões africanas, nos foi prometido, dias sem chuva, noites sem tristezas, vida sem morte. Ao contrário: nos é ensinado que quanto mais fizermos para o Santo mais estamos sujeitos a sofrer, pois as pessoas boas, que amam a Deus e seus Ministros, que obedecem as leis Divinas, são constantemente atacadas pelas forças do mal.

Se deitamos com amor em nosso coração e, nos levantamos coma certeza de que em mais um dia, Deus e nossos Orixás estarão conosco, mais rápido superaremos as nossas dificuldades.

Digo tudo isso, como ser humano que lutou, sofreu e nos momentos difíceis fraquejou, se revoltou com as dificuldades. Mas, após a tempestade, vi que somente a fé e o amor incondicionais, me fariam superar os obstáculos.

Aprendi um ditado chinês que assim diz:

“certo dia, o servo chegou para seu amo e disse: “senhor, seus bois e vacas morreram, sobrou somente um boi e uma vaca e a plantação' Então seu senhor respondeu: “que bom que sobrou um boi e uma vaca, pois assim podemos recomeçar, afinal ainda temos também as plantações”. No segundo dia o mesmo servo disse: “senhor morreram o único boi e a única vaca que sobraram”. O senhor respondeu: “que bom, pois ainda temos a plantação”. Porém, no terceiro dia o servo retornou e disse: “senhor, o senhor está acabado, pois além de terem morrido todos seus animais, sua plantação acabou, pois caiu um raio e a tudo incendiou.” Então, o senhor olhou para seu servo e respondeu sem perder a calma: “QUE BOM QUE TUDO ACABOU, POIS CHEGOU O MOMENTO DE RECOMEÇARMOS”!

Essas palavras muito me foram úteis em um dia de minha vida, e espero que possa ser útil para mais alguém, pois, a cada dor que passamos, nosso Orixá passa conosco, a cada lágrima que derramamos, nosso Orixá está conosco, e nunca nos desampara, nós, é que nos afastamos deles, nos revoltamos e assim damos força ao inimigo para nos ver cair.

Mantenha sua fé independente do que estiver passando. Ame a Deus e seu Orixá de forma incondicional, sem nada pedir em troca, e verá que as coisas se transformam, mesmo que dure um tempo.

Lembre-se de que; nos momentos difíceis é que mostramos nossa fé!

Um axé para todos.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi: Odé Mutaloiá.








segunda-feira, maio 24, 2010

POR QUE TEMOS QUE SER RASPADOS EM NOSSA INICIAÇÃO

A vida de uma pessoa dentro do Candomblé é marcada por uma série de rituais sem os quais ela não pode se considerar como membro dessa religião que tantos adeptos possui, e que, a cada dia, mais e mais praticantes e simpatizantes veem se juntar às suas fileiras.

O mais importante desses processos é sua feitura, quando ela passa a ser um membro de uma casa,como yawò, ou seja, como um noviço, que vai aprender aos poucos, todos os mistérios que compõem esse grande e belo universo.

A feitura é um processo que leva até um mês, ocasião em que o iniciando, fica recluso, sem contato algum com o mundo externo. Nesse período, ele aprende as cantigas, rezas, danças e alguns dos elementos básicos para sua vida como filho de santo.

Passa por um bori, e depois de mais alguns dias ele é feito, ou seja, tem sua cabeça raspada para que possa ser reconhecido por seu Orixá e pelos demais como um membro ativo da religião.

Algumas pessoas se prendem a mitos, que dizem os mais variados absurdos sobre essa fase, chegam a dizer que nessa época a pessoa que se iniciou, faz um pacto com as forças trevosas. Mas, isso não passa de lenda.

Em nossa feitura, temos contato direto com nosso Santo e sendo ele uma força da natureza, pura e muito elevada, dispensa algumas necessidades dos seres humanos, como sexo, bebida, fumo e outras. Exatamente por esse motivo, ficamos isolados do mundo: para nos purificarmos das energias negativas que trazemos de nossa vida cotidiana.

Durante o processo de reclusão, passamos por várias etapas, e em cada uma delas, temos uma visão de como Deus é grandioso, e de como criou a tudo para que os seres humanos tenham condição de cumprir sua jornada.

Se temos nossa cabeça raspada, nada tem a ver com simbologia infernal, até mesmo, pelo fato de os africanos nunca terem conhecido essa coisa em sua terra natal. Somos raspados, pois essa fase representa o nosso nascimento para o mundo do Orixá, ou seja: morremos para o mundo exterior, e nascemos para esse novo mundo que nos apresenta, onde buscaremos a cada dia o aperfeiçoamento nosso e de nosso Orixá.

Depois que somos raspados, e que o Orixá é imantado em nosso corpo, o mesmo nos aceitou como parte dessa filosofia que remonta à época muito mais antiga que o Cristianismo.

Se recebemos outro nome, ou seja: Digina, é para que saibamos que desde o momento de nossa iniciação, temos um compromisso com a doutrina de nossos antepassados, com sua maneira de ver e de viver. Nossa Digina é o nome que nosso Orixá nos deu, da mesma forma que um pai e uma mãe dão nome a seus filhos quando de seu nascimento.

Recebemos então, juntamente com nosso nome, o compromisso de zelarmos pela natureza, pelo ser humano, pelos animais e por tudo que Olorúm, Deus, criou e nos concedeu o direito de utilizarmos durante nossa existência.

Tão somente por isso, existe o grande mistério de uma iniciação e que somente os que passaram por ela, sabem o seu significado real, e tudo que ali é feito. Pois dentro do Candomblé, tudo é mistério e somente os iniciados teem autorização para desvendarem, e isso dependendo de seu tempo e grau de iniciação.

Sergio Silveira, Tatetú N’Inkisi: Odé Mutaloiá.





segunda-feira, maio 17, 2010

CANDOMBLÉ: UMA RELIGIÃO MONOTEÍSTA OU POLITEÍSTA?

Devido ao fato de zelarmos, e invocarmos a presença de nossos Orixás para nos ajudem em nossas vidas, é comum nos chamarem de “adoradores de deuses” de politeístas. Os sacerdotes das religiões cristãs, dizem que não teremos salvação, etc. e tal, por sermos politeístas e não acreditarmos em Cristo e Deus.

O fato de cuidarmos de nossos Orixás, em nada nos apresenta como politeístas, pois dentro do Candomblé, acreditamos em um Deus único, que criou o céu, a Terra e tudo que existe em nosso mundo e fora dele.

Somos de uma religião Monoteísta sim, pois cremos em um só Deus, e seus Ministros que são nossos Orixás. Esses seres são na verdade, antepassados de todos nós, e após seu desencarne, conforme a crença africana, sua energia se misturou com a dos Orixás e hoje nos auxiliam na vida.

Por que então, se cremos nos Orixás não somos Politeísta?

Muito fácil: os africanos mais antigos, aqueles que viveram há séculos e séculos atrás, eram caçadores e agricultores, era uma civilização arraigada a seus cultos, pois esses por sua vez, descendiam de seus ancestrais.

Assim sendo, como um povo caçador e agricultor, e como faziam várias outras civilizações, viam na Terra, nos rios, na caça, nas plantas, em fim; em tudo que existia, a forma e a presença de Deus, Olorúm, e assim sendo, cultuavam essas formas como se fossem a expressão da face de Olorúm. Quando matavam, agradeciam a Deus pela caça e rezavam para aquele ser que mataram para lhe agradecer por sua carne servir de alimento para seu povo.

Como um povo antigo, acreditavam que tudo que na Terra existia, era um presente de Deus para que pudessem sobreviver, enquanto aguardavam seu retorno para o mundo dos espíritos. Vale à pena lembrar, que esses povos temiam a ira dos espíritos, da mesma forma com que temiam a ira do Criador.

Assim, com o passar dos anos, as civilizações antigas foram dando lugar a outras mais modernas, mas, mesmo assim, a cultura de seus ancestrais estava arraigada no mais íntimo de seus seres, e foi passada de geração para geração.

Com a chegada do mundo moderno, a ciência se desenvolveu, o homem sempre necessitado de uma explicação para tudo e principalmente para a sua própria existência, começou a criar maneiras de explorar seu inconsciente para que pudesse ter uma lógica até mesmo para a existência de sua alma, coisa que a ciência antiga não acreditava em hipótese alguma.

Segundo pesquisadores, a ciência conseguiu provar que um corpo pesava menos depois da morte e assim, pode aceitar a existência do espírito.

Com nossa religião, não foi diferente, foi preciso que estudiosos, como Pierre Verger, adentrassem para o mundo do culto aos Orixás, para que as pessoas passassem então a nos olhar de outra forma.

Puderam então, ver que concebemos sim, a existência de Deus e de seu filho Jesus Cristo, mesmo sendo nossa religião muito mais antiga que o Cristianismo. Acontece que vários negros ao irem para os Estados Unidos, Brasil e outras localidades do mundo, conheceram a história de Cristo.

Isso se deu, pois mesmo sendo pessoas que não sabiam escrever, eram dotados de grande inteligência, e, vendo as gravuras dos livros que contavam a vida e morte de Jesus, compreenderam que ele fora um homem o qual lutou pela liberdade acima de tudo e somente não compreenderam como os mesmos homens que deviam a ele, o sacrifício ao qual se submeteu, o mataram em uma Cruz.

Não compreendiam como que uma pessoa que somente desejava a paz, fosse morto pela sua própria gente! Mais tarde, quando começaram a ser catequizados, foram vendo que suas interpretações eram mais que corretas e desde então passaram a conhecer a Cristo e sua vida.

Viram também, que os homens que os escravizaram, adoravam um ser que chamavam de Deus e que esse tinha como Reino, o céu. Então, viram que esse mesmo Deus era conhecido em sua terra por outros nomes dependendo da localização de cada tribo, e viram que: Olorúm, Zambiapongo, Ododúa, e outras formas de o chamarem, eram na verdade um só, e, o mesmo para o qual, os brancos celebravam cultos aos domingos, nascia assim à correspondência de Deus com Olorúm, Zambiapongo e outros.

Contavam suas lendas, que existia: Olorúm, seu rebento Oxalá e, Oxalufã e Oxaguiã e viram que dentro da religião dos brancos, existiam: Deus, e as três pessoas da Santíssima Trindade na qual constava como governante do mundo, Cristo. E assim, sincretizaram Cristo com Oxalá, e por aí foi que surgiu o sincretismo.

Dentro das ramificações das religiões africanas, Deus era único e para ele, não faziam cultos, não dedicavam filhos aqui na Terra, pois como poderia uma pessoa se incorporar com aquele que tudo criou? Também, não chamavam seu nome em vão, e, somente em casos muito extremos ousavam pronunciar o Santo nome de Olorúm.

Por que não dedicavam cultos expressos a Olorúm? Porque ele já é onipresente e assim sendo, vive e caminha com os homens diariamente através de seus Ministros, que são os Orixás! Também não dedicavam filhos para serem iniciados a ele, pois em sua visão, todos somos filhos de Deus, e somente temos nossos Orixás, para que esses intercedam junto a Deus por nós!

Quando nascia uma criança, o babalaô, que era a pessoa incumbida de consultar os antepassados através do jogo de Ifá, fazia a consulta para ver se aquela criança era escolhida para o sacerdócio e se assim fosse, dava-se início a seu aprendizado.

Na África antiga, se o Rei de uma aldeia, fosse, por exemplo, filho de Ogum, todos os que nasciam ali eram consagrado para esse Orixá. Aqui no Brasil, foi que se deu início ao culto de que, cada um tem seu Orixá próprio, pois o mesmo é destinado por Orumilá, outro nome com o qual Deus é conhecido na África.

Temos apenas que ficar atentos, pois mesmo tendo nosso Orixá, temos o Orixá de nossa família e a esse também devemos entregar presentes e as mais diversas oferendas conforme a deliberação do Oráculo Sagrado de Ifá.

Assim sendo, podemos obsevar que o Candomblé é sim uma religião Monoteísta, pois acreditamos em um único ser, que a tudo criou e que preside o destino dos homens aqui na Terra.

Cremos sim, em Cristo seu único filho, pois os primeiros que aqui chegaram aprenderam a fonte de bondade suprema que é esse Filho de Deus.

Apenas temos outra forma de vermos Deus e nossas vidas! Não acreditamos na morte como o fim, mas sim como o recomeço de uma nova etapa na vida do espírito, pois, cremos também que o Universo não desperdiça nada e, que após desencarnarmos, nosso espírito se funde com o de nossos antepassados, para que possamos assim, auxiliar os que aqui vivem, e tudo isso faz parte de um processo de aperfeiçoamento para que um dia, possamos todos, inclusive nossos Orixás, vivermos na presença de Deus.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi: Odé Mutaloiá.





domingo, maio 16, 2010

A ORIGEM DE DAOMÉ, TERRA DOS JÊS E DA CULTURA JÊJE.

Como nação, todos conhecemos o Jêje e sua importância na disseminação do Candomblé, mas, como surgiu esse país?

O Dahomey, ou Daomé em português, foi um próspero reino africano, fundado no século XVII, segundo historiadores, e durou até o século XIX, ocasião em que foi conquistado pela França com o apoio das tropas do Senegal.

A origem da nação Dahomey, deu-se com o povo adjá que pertenciam ao reino costeiro de Aladá. Esse povo teria se deslocado para o norte, e se estabelecido entre outro povo de linguagem fon. Como os Adjás era um povo guerreiro, em meados de 1650 dominaram os fons e seu Rei, Hwegbajá se declarou rei de todo aquele território.

Estabeleceu a capital em Agbome ou Abomei, e tanto ele quanto seus sucessores, estabeleceram um estado totalmente centralizado, tendo como base a prática do culto à realeza, instituindo os rituais de sacrifícios e até mesmo o sacrifício humano em honra a seus antepassados.

Como reinado, toda a terra pertencia ao rei, e esse recebia imposto de tudo que ali se produzia. Porém, como eram guerreiros por excelência, Hwegbajá, e todos os reis que vieram depois dele, tinham outra fonte de renda que proporcionava lucros imensos: a venda de escravos.

Para tanto, mantinham esses reis, contato direto com traficantes de escravos, e a eles entregavam os povos vencidos em batalha, para que fossem vendidos para toda a Europa. Sua invencibilidade nas guerras era graças às armas de fogo, que conseguiam trocando escravos pelas mesmas com os europeus.

Mas, mesmo com todas as conquistas alcançadas, faltava ainda um reino a ser aprisionado, e esse era o reino de Aladá, localidade de onde se originava a família real. A conquista desse reino veio com a regência de Agadjá, Rei e guerreiro, que governou entre 1716 e 1740.

Após ser vencida em batalha, Aladá, ofereceu grandes lucros, pois todos seus habitantes foram transformados em escravos e vendidos diretamente aos comerciantes europeus que viviam da venda de pessoas escravizadas.

Alguns estudiosos acreditam que o fato de os Jêjes terem sido os maiores vendedores de escravos, foi o que favoreceu para que as tropas do Senegal ajudassem a França na conquista do mesmo. Ainda existem outros que afirmam terem sido os Jês que criaram o comércio tradicional que conhecemos até hoje, bem como o comércio de escravos, eram guerreiros e segundo estudiosos teriam sido canibais.

Mesmo com toda a sua força e poder aquisitivo, existia um reino vizinho a Agadjá, o qual seus reis nunca conseguiram vencer, e esse era o reino de Oyó, principal reino de sua época, e que se transformou em Império.

Com a dificuldade de se conquistar Oyó, e pelo fator de ser esse Império, o maior concorrente de vendas de escravos, o Rei de Dahomey tornou-se um súdito feudal de Oyó, pagando tributos a seu governante.

Mesmo como Estado submisso de Oyó, Dahomey continuou a crescer e a prosperar, graças ao comércio escravagista. Era também um reino que vivia da agricultura, tanto que mais tarde seu crescimento continuou aumentando com a produção e venda do azeite de dendê, uma vez que nesse reino existia uma imensa plantação de dendezeiro.

Toda a plenitude econômica de Dahomey, no entanto, se deu no século XIX, pois começou a exportar escravos para uma nova terra: o Brasil. Graças a essa prática, ficou o país conhecido pelo apelido de “costa dos escravos”. Ainda nessa época, um brasileiro de nome Francisco Félix de Souza, protegido do rei Guezô, tornou-se num dos mais famosos comerciantes de escravos.

Depois de uma guerra que durou de 1892 a 1894, Dahomey, foi conquistado pela França, mas, essa vitória somente foi alcançada, graças às tropas de africanos que revoltados com o fato desse povo ser o maior vendedor de sua própria gente para os demais países, ingressaram nas fileiras francesas, entre esses, um povo se destacou na batalha, os Yorúbas.

Com a transformação de muitos países, Dahomey também se adequou as novas à modernidade e assim, em meados de 1960, Daomé alcançou sua total independência se transformando na atual República de Benin. Em 1985 a UNESCO tombou os palácios reais de Abomei como Patrimônio Histórico Mundial.

Esses foram os Reis de Daomé:

• Ganiehéssu - Não se tendo uma posição exata do inicio de seureinado, que terminou em1620

• Dǎko-Donu, reinou no periodo de 1620 até 1645

• Hwegbadjá, esse Rei governou de 1645 à 1685

• Akabá,seu governo se deu entre 1685 e 1708

• Agadjá, reinou no período de 1708 à 1732

• Tegbesu, reinado entre 1732 e 1774

• Kpenglá, reinou nos anos 1774 até 1789

• Agonglô, foi Rei de Daomé de 1789 à 1797

• Adandozan, reiando entre 1797 à 1818

• Guezô, Rei deste país no período de 1818 até 1858

• Glelé, Rei entre 1856 à 1889

• Gbehanzin, a história se refere a ele como sendo o ultimo Rei de Daomé, e governou entre 1889 e 1894

Texto de Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi Lambanranguange: Odé Mutaloiá. Babalorixá, escritor e pesquisador.

Fonte de pesquisa: Bibliotecas virtuais da África e Wikipédia.

quarta-feira, maio 05, 2010

A GRANDIOSA NAÇÃO JÊJE

Como sabemos, o Candomblé se deu início, com a vinda para o Brasil, de vários africanos escravizados em sua terra natal. Junto traziam seus deuses, seu jeito de ver e viver a religião de seus antepassados. Assim o Candomblé, possui suas nações, que são as representações das terras de onde se originaram cada etnia negra que aqui viveu.

Hoje vamos falar um pouco da nação Jêje.

Essa ramificação do Candomblé cultua os Voduns, seres ancestrais do antigo Dahomey, que compõem a rica e elevadíssima cultura Fon. Os negros dessa região, ao chegarem ao Brasil, eram chamados de djedje, ou jêje, como ficou conhecido no português. Essa palavra se origina do Yorubá que significa estranho, estrangeiro. Os povos do antigo Dahomi, assim chamavam seus vizinhos.

Assim como os nagôs, os Jêjes, que possuem as línguas, ewe, fon, mina e ainda os fanti ashantis, formam na verdade, grupos de sudaneses que pertencem à África Ocidental, hoje conhecida como Benin e Togo. Esses negros chegaram ao Brasil, escravizados em meados do século XVII.

Aqui, a palavra djedje, ou seja: Jêje, passou a ser traduzida como inimigo, isso devido a existirem aqui, povos que foram conquistados pelo Rei de Dahomey. Esse Rei conquistava os demais povos e os vendia como escravos para os europeus.

Quando alguns nativos de uma determinada aldeia enxergavam seus conquistadores, gritavam imediatamente: “Pou okan, djedje hum wa”! Ou seja: “olhem, os jêjes estão chegado”! Esse era um alerta para que fugissem de sua aldeia evitando assim, seu aprisionamento e a escravidão.

Segundo alguns historiadores, a mesma frase era usada quando escravos de outras regiões viam os Jêjes chegando em navios, aprisionados e escravizados da mesma forma que colocavam os membros de outras aldeias, e assim eles ficaram conhecidos como Jêjes.

Com a escravidão, muitos reis, rainhas, príncipes e princesas foram levados de sua terra e transformados em seres sem direito algum que não fosse o árduo trabalho e a chibata.

Entre esses, muitos sacerdotes, sacerdotisas ou mesmo os que eram apontados como sucessores dos primeiros, e a esses grupos, a perseguição era ainda maior, pois segundo a igreja, praticavam o culto ao demônio e assim sendo, teriam que ser destruídos de qualquer forma.

Dentre os inúmeros sacerdotes que aqui aportaram, constava nas fileiras dos Jêjes, uma senhora cujo nome era Ludovina Pessoa. Esta era natural da cidade de Mahi, Marri no português.

Foi ela eleita pelos Voduns, para fundar três templos a eles dedicados, e esses templos foram edificados na Bahia, pois que lá ela vivia como escrava.

Os templos que ela fundou eram:

• Templo de Dan, batizado de Kwé Cejá Hundé,

• Templo de Heviossô, batizado como Zoogodo Male Hundô.

• E o último, porém nem por isso menos importante, que foi dedicado a Ajunssum, porém esse não chegou a ser concretizado e os historiadores não sabem apontar a causa.

Segundo pesquisadores, o templo de Ajunssum foi erguido bem depois, por uma africana chamada Gaiaku Satu, em cachoeira de São Felix, e esse templo recebeu o nome de Axé Kpó Egi.

Mais tarde, essa nação foi sendo perpetuada em outros estados brasileiros e hoje mantém as mesmas tradições de seus antepassados, sendo considerada pelo povo de santo, como a nação mais rigorosa, a mais difícil de ser praticada, pois que seus rituais seguem as mesmas diretrizes de seus antigos zeladores.



Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi: Odé Mutaloiá.


sexta-feira, abril 23, 2010

O CANDOMBLÉ E O BATUQUE

O Candomblé assim como o Batuque, são formas africanas de se ver Deus. São cultos a natureza, às divindades que governam a mesma, segundo a determinação de Olorúm, palavra Yorubá para designar o Supremo Criador, Olô = Senhor, Orúm = Céu, ou seja: Senhor, Dono do Céu.

Como religiões mantêm os preceitos de acordo com as práticas que eram realizadas pelos seus mais antigos sacerdotes, ainda em sua terra natal, a África. Diferem-se entre si, nas qualidades dos Orixás, nas comidas e nas formas de cultos, porém, unem-se na mesma crença de que Olorúm, Deus, criou o mundo e seus Ministros os Orixás para que governassem o mesmo em seu nome, até porque, segundo os antigos africanos, o nome de Deus não deve ser pronunciado em vão.

Tanto no Candomblé como no Batuque, os Orixás, não são em hipótese alguma, superior um ao outro, são na verdade a unificação de suas forças em prol do bem da humanidade assim como, seguindo rigorosamente suas leis.

Assim sendo, os Orixás dependem um do outro para que possam agir e interagir em nossas vidas, abreviando nossos sofrimentos e nos ajudando no nosso crescimento material e principalmente no espiritual.

As formas de culto modificam, nas duas religiões, dado às áreas da África da qual descendem. Mesmo dentro das nações do Candomblé e do Batuque, existem diferenças nos cultos, pois é sabido que cada região tinha seu próprio culto às divindades.

As nações do Candomblé são assim divididas: Angola, Kêtu, Jêje, Nagô, sendo essas as principais, as nações mães, de onde se originaram as ramificações, como Bate Folhas, Engenho Velho, Gantois, Mahi, Bogun, Muxicongo, ente outras.

Já no Batuque, s nações se dividem entre si da seguinte forma: Jêje, Ijexá, Oyó, Cabinda e Nagô. São as nações do Batuque, como no Candomblé, a referência de suas origens, ou seja: cada nação pratica da forma mais aproximada possível os mesmos rituais que seus antepassados praticavam na Mãe África.

O Candomblé tem sua origem ainda no Brasil colônia, uma vez que a primeira casa fundada em Salvador, Bahia, foi o Ilé Axé Iyá Nassô Oká, que segundo as tradições foi fundada por três negras africanas que eram princesas em sua terra, sua data é em tor 1600. Uma outra casa de renome, é Ilê Maroiá Lájié, que foi fundada em 1636.

O Batuque muito embora seja também uma ramificação das nações africanas, teve seu iniício mais tarde, no Estado do Rio Grande do Sul. Consta nos registros que a primeira casa foi fundada já no século XIX, mais precisamente no período de 1833 e 1859. Também foi criado por escravos que viviam nesse Estado, e seu apogeu se deu quando um Príncipe chamado Custodio, chegou nessa terra no final do século XIX. Segundo alguns historiadores, esse Príncipe teria deixado sua terra, Ajudá, que se situava no antigo Dahomey, atual Benin, diante da promessa dos ingleses de que seu povo não sofreria.

O certo é que esse Príncipe governou seu povo com amor e sincera dedicação aos Orixás, e passou a ser visto por seus irmãos como um verdadeiro Deus.

As formas diferenciadas entre o Candomblé e o Batuque se dão também nas formas de se entregarem as oferendas aos Orixás, uma vez que suas comidas também se diversificam entre os dois seguimentos. Alguns aspectos se relacionam de forma comum, a exemplo de Xangô que no Candomblé é o único rei coroado, o mesmo se dando dentro do Batuque.

Na prática do Candomblé, temos Yemanjá como mãe de todos os Orixás, o que ocorre também dentro do Batuque. Existe, porém um Orixá conhecido no Candomblé como Nanã Burukê, que dentro do Batuque, segundo informações de alguns seguidores, seria um Yemanjá velha. Assim sendo, Nanã que para o Candomblé seria a priemeira esposa de Oxalá, sendo assim a mais velha de todos os Orixás, dentro do Batuque é conhecida como Yemanjá.

Outras diferenças existem entre os Santos das duas ramificações, como o dia de algumas divindades. Odé, por exemplo, é cultuado na quinta feira, já no batuque esse dia seria de Ogum.

Assim como Nanã para o Candomblé, existem Orixás que são cultuados somente no Batuque, como é o caso de Ogum Avagã, uma forma que somente dentro dos preceitos do batuque se conhece seus fundamentos.

Mas, o mais importante é sabermos que como religião, somos todos descendentes de uma mesma etnia: os negros e assim sendo, devemos nos comportar como irmãos, respeitando mutuamente e nos ajudando sempre que for necessário, principalmente dentro da intolerância religiosa, que fere a Carta Máxima de nossa Nação, a Constituição.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi: Odé Mutaloiá. Babalorixá, escritor e pesquisador.

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quinta-feira, abril 22, 2010

OGUM MEGÊ



“O seu cavalo corre, em ninguém ver, ô salve as sete espadas de Ogum Megê”.

Essa qualidade de Ogum de Umbanda é muito invocada para resolver casos de feitiçaria e outros trabalhos mais pesados, principalmente os que envolvem a Calunga Pequena, ou cemitério.

Esse Orixá anda geralmente nas encruzilhadas e estradas que dão aceso ao campo santo, e sua força se une com a de Omulú, o grande guardião das almas e de sua morada. Grande guerreiro, sempre está atento para o que se passa dentro dos cemitérios, sendo importante que; antes de fazermos qualquer obrigação neste local, levemos presente para ele.

Ogum Megê, assim como os demais Oguns, é um protetor fiel, e sempre que por ele chamamos, encontramos pronto atendimento às nossas súplicas.

Com seu cavalo, este Ogum ronda os cemitérios sempre e nada podemos fazer sem sua devida autorização. Era comum os umbandistas mais antigos, levarem para ele, cerveja, velas, ou outro tipo de oferenda para que ele autorizasse aos exús daquele lugar, que viessem atender a um chamado sempre que deles precisassem.

Usa as cores vermelha e branca, assim como a grade maioria dos Oguns de Umbanda, fuma cigarro ou charuto e quando incorporado, bebe de forma moderada a cerveja branca.

Ao invocarmos algum exú de cemitério para nos ajudar em alguma situação, o Sr. Ogum Megê, vem imediatamente até as proximidades do portão e pergunta a que lugar vai aquele exú, e se ele não foi devidamente homenageado, pode impedir que aquele exú venha trabalhar, e essa é a causa de alguns trabalhos de cemitério não renderem resultados satisfatórios.

Dentro da quimbanda, assim como os demais Oguns, Megê se encarrega de supervisionar os trabalhos que são realizados e se por ventura algo de muito errado for feito, ele imediatamente comunicará às esferas superiores e se dará assim, o início da cobrança daquele ato, primeiramente para o exú e posteriormente para a pessoa que solicitou o trabalho.

Recebe velas brancas, vermelhas e brancas e sempre ao redor dos cemitérios, também costuma receber cerveja branca e algumas pessoas costumam colocar farofa para o mesmo.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi: Odé Mutaloiá.




segunda-feira, abril 19, 2010

OGUM IARA


Temos aqui uma das muitas formas de Oguns dentro da Umbanda, um de seus pontos assim nos diz:

“Ogum Iara, quando era menino, em seu cavalo branco ele foi guerrear, ele guerreou, lá na sua banda e na nossa banda ele venceu demanda”.

Vemos nessa entoação, toda a bravura desse guerreiro, sua forma destemida de encarar as demandas, sejam elas no plano espiritual ou material.

Mas, quem é Ogum Iara?

A palavra Iara em tupi guarani, se traduz segundo alguns estudiosos, como Senhor, Proprietário, e a palavra Ogum significa O Guerreiro, ou ainda Aquele que faz guerra. Assim sendo temos uma tradução lógica de Aquele que é senhor da guerra.

Muito se fala em Ogum como grande guerreiro, mas às vezes nos esquecemos de que ele também é ligado às irradiações femininas, como no caso de Ogum Iara, que trabalha com a radiação da deusa Oxum. Ele une suas forças, com as de Oxum e ainda segundo alguns mais velhos nos preceitos da Umbanda, seria ele, o guardião das cachoeiras de Oxum, juntamente com Ogum das sete cachoeiras.

Assim sendo esse Ogum trabalha com o poder de purificação e transformação do fogo, e com o encantamento das águas doces, que são capazes de nos livrar de todos os males.

Ogum Iara ainda é associado para alguns à Yemanjá, por ser ela, nas crendices africanas uma sereia, mas vale a pena lembrar que Iara é a sereia encantada de nossos índios, aquela que em noites de luar, vive a cantar nas margens dos rios e onde mora. Também é conhecida como mãe d’agua pelos nossos índios.

Conta sua história que antes de ser transformada em sereia, Iara era uma índia guerreira, a melhor que já tinham visto naquelas tribos. Porém, ela era invejada por seus irmãos, pois seu pai vivia cobrindo-a de elogios, tanto por sua beleza como por sua valentia.

Certo dia, cansados de tanto ouvirem elogios à sua irmã e desejando tomarem seu lugar, planejaram matá-la e logo puseram seu macabro plano em ação.

Certa noite adentraram em sua tenda logo após ela dormir para darem cabo de sua vida, mas, como ela tinha ouvidos aguçados, escutou-os e para que sua vida não fosse tirada, teve que matar seus irmãos, fato consumado, ela fugiu com medo de seu pai que era um valente pajé.

Tão logo soube da morte de seus outros filhos e do desaparecimento de sua filha, ligou os fatos e decretou uma caçada impiedosa a Iara.

Após sua captura, ela foi condenada, a morrer afogada e foi jogada no local onde os rios Negro e Solimões se encontram para que ali morresse. Mas, os peixes penalizados com sua situação, a trouxeram de volta para a margem poupando assim sua vida. Eis que era uma noite de lua cheia, e ao seu clarão, ela foi transformada em sereia.

Por ser guerreira, ela passou a caminhar juntamente com Ogum e assim este passou a ser conhecido como Ogum Iara. Como Ogum opera a força viva do fogo, e Iara comanda as forças do rio, passaram a juntos formarem essa qualidade de Ogum.

Vale a pena lembrar de que Ogum e Iara são seres distintos, não se fundindo como um só. Tão somente por ele caminhar junto dela, passou a ser chamado Ogum Iara, ou a União do fogo com a água.

Também é esse Ogum, que, juntamente com Ogum das sete cachoeiras, guardam as águas de Oxum, garantindo assim, que seu reino não sucumba perante a invasão de forças malignas.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi: Odé Mutaloiá.