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sexta-feira, março 06, 2009

EXCOMUNHÃO NO PERNAMBUCO

Como sacerdote, claro que valorizo a vida e que ela está em PRIMEIRÍSSIMO LUGAR em todas as esferas de minha vida. Luto dia a dia pela moralização de minha religião e pela manutenção da vida, afinal, ela é o maior tesouro que Deus nos concedeu.

Mas, não posso me calar com essa atitude do Bispo de Pernambuco que optou por excomungar os médicos que fizeram o aborto na menina de apenas nove anos de idade, vitima de um estupro e que ainda por cima corria sério risco de morte.

Que me perdoem os defensores de tal idéia, mas, não posso classificá-la de outra coisa que não seja, mesquinha, retrógrada, fútil., obsoleta e simplesmente individualista e de uma classe machista dominante e chauvinista.

Defendo o direito das mulheres acima de qualquer coisa, não entro em questão de aborto ser ou não permitido aqui nesse Blog, pois acho como disse o Ministro da Saúde, “que aborto é questão de saúde publica acima de qualquer coisa”.

Mas, opiniões à parte, pergunto-me por que de uma atitude estúpida de um sacerdote que deveria sim, a meu ver, ficar ao lado da criança violentada por esse MONSTRO que se autodenomina gente, e não entrar em cena com uma atitude que somente vem denegrir a imagem da igreja a meu ver. DIZER QUE O ABORTO FOI MAIS GRAVE QUE O ESTUPRO? TERIA ESSE BISPO, FAMÍLIA POR ACASO?

Será que para a igreja, seria melhor que essa criança morresse ao dar à luz os gêmeos? E isso segundo os médicos, se ela conseguisse levar a gravidez, pois que corria sério risco de morrer.

Já que a igreja deseja se mostrar tão autoritária e excomungar as pessoas, por que não fez tal ato com o PILANTRA que violentou uma criança que deveria estar aos seus cuidados? Onde fica o direito dessa criança, e onde está a moralização? Afinal estupro ao que me consta é contrária a todas as doutrinas religiosas.

Penso que a igreja tem que rever seus pontos de vista, e enxergar que vivemos em um mundo no qual os valores mudaram exacerbadamente e não cabem mais, valores obsoletos como esses que simplesmente amaldiçoam a quem não compactua com seu modo de viver, pensar e fazer as coisas.

Porém, se a atitude desse médico é errada, posso garantir que não é mais errada que a da igreja que por séculos queimou pessoas em fogueiras tão somente por confessarem-se de outro credo.

Excomunguem então seus antepassados que chegaram mesmo a dizer que “preto não tem alma”, frase muito comumente utilizada pelos CARRASCOS da inquisição.

Onde estão os direitos dessas pessoas queimadas? Onde estão os direitos garantidos pela Constituição Federal e pelos vários códigos de lei que regem nossa nação?

E ainda mais: para cada bandido preso, existem correntes de padres, pastores, e membros de arquidioceses defendendo seus direitos, assim sendo, seres malditos como esse monstro, sabem que contam com esses sacerdotes para lutarem por seus direitos.

No mais, só me resta PARABENIZAR ao médico responsável pela execução do aborto e dizer-lhe: NÃO TEMAS A EXCOMUNHÃO, POIS ELA DE NADA VALE, E MILHÕES DE PESSOAS ESTÃO AO SEU LADO!

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi: Odé Mutaloiá.

odemutaloia@hotmail.com

odemutaloia@gmail.com


quarta-feira, março 04, 2009

AMEMOS NOSSOS ZELADORES

Antigamente, um zelador de santo era amado acima de qualquer coisa por seus filhos, mas, hoje, o que vemos é a arrogância tomando conta da maioria dos iniciados no Candomblé, derrubando a hierarquia, desrespeitando todos os tabus que nós, aprendemos com nossos antepassados.

Uma ânsia de conhecimento e de se auto intitularem “zeladores”, faz com que o amor e o respeito sejam delegados a segundo plano. Isso com certeza vem ferir os princípios de ética e moral que sempre existiram dentro das casas de santo. Muitas vezes os zeladores se veem obrigados a aceitarem algumas coisas, para que possam dar seguimento às suas casas, fazendo com que a nossa doutrina não se perca com o tempo.

Algumas pessoas que se dizem zeladores, não possuem o mínimo preparo para exercerem tal função, se levam pela soberba e assim destroem nossa fé cada dia mais. Esquecem-se de que Candomblé é HIERARQUIA E ANCESTRALIDADE, tumultuam as coisas, mentem, caluniam, pisam literalmente em cima de preceitos tão sérios e tão antigos, e ainda existem algumas pessoas que acham que esses estão certos e que a doutrina tem que mudar para acompanhar os tempos.

Sabemos que os tempos são outros, e muito zeladores veem aos poucos mudando suas formas de ver e de fazer as coisas, mas existem coisas que NÃO MUDAM NUNCA, e o respeito aos mais velhos é uma delas.

Esquecem-se de que amar seu zelador é antes de tudo, amar a seu próprio Orixá, pois que foi ele quem escolheu a mão que vai alimentá-lo. Aparecem cada dia mais, pessoas que se intitulam cartomantes, jogadores de búzios e assim por diante, mas sem preparo algum para a dura realidade da vida sacerdotal.

Sim, dura realidade, pois ser sacerdote é muito mais que jogar búzios, muito mais que sacrificar animais, até mesmo porque, sacrifício, não se faz assim a todo instante. Existem momentos e horários próprios para as coisas.

Ser sacerdote é antes de tudo, abrirmos mãos de nossa vida pessoal, é muitas vezes abdicarmos de um fim de semana ensolarado, de nos privarmos do convívio com nossas famílias, para darmos socorro a quem precise.

Mas, se por um motivo ou outro, um zelador, chama a atenção de um filho, esvai-se nesse momento todo o amor que ele professava para seu mestre, e até mesmo as juras que o próprio Orixá fez em relação a seu zelador.

Sinto saudade dos tempos em que, ao tomarmos uma “baixa” de nossos zeladores, nos curvávamos e tomávamos sua benção, pois entendíamos que aquilo era para nosso engrandecimento espiritual. Sinto saudade do tempo em que um zelador era amado de verdade por seus filhos e não questionado em suas atitudes. Mas, hoje em dia, se colocam em duvidas até mesmo os atos ritualísticos que os zeladores executam.

E com isso quem perde, somos nós mesmos, pois que, muitos zeladores mais antigos, estão preferindo se afastarem dos cultos, se preocupando apenas em cuidar de seu Orixá e suas casas terminam por fecharem as portas.

E essa atitude é tomada apenas por quem leva as coisas do Orixá com realidade e não com falsas promessas e nem mesmo com bagunça.

Se amamos nossos Orixás, aprendamos a amar nossos zeladores, pois eles foram escolhidos por nossos Santos, e não por nós.

Lembremos que: A sabedoria verdadeira, somente é passada para aqueles que amam suas casas, seus santos e seus zeladores. E, que fora desses princípios, apenas aprenderemos coisas erradas, marmotagens e NUNCA O VERDADEIRO AXÉ ORIXÁ.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi: Odé Mutaloiá.

odemutaloia@hotmail.com


sexta-feira, fevereiro 27, 2009

OBÁ

Grandiosa Orixá, guerreira e caçadora, foi uma das esposas de Xangô, é semelhante à Oyá em alguns aspectos. É a ninfa do Rio Obá na Nigéria.

Como uma das esposas de Xangô, Obá sofria com sua predileção por Oxum, vaidosa, linda de corpo, e sempre estava em sua companhia por onde quer que esse fosse. Obá sentia-se muito triste, pois achava que devido a sua forma, era um tanto obesa, Xangô preferia mais Oxum, e assim sendo Obá sofria dia após dia, pois amava incomensuravelmente seu marido, mas esse sempre a desprezava. Não enxergava ele, que grande guerreira e dedicada esposa tinha n’ela.

Certo dia, Obá ao ver que Oxum se encontrava sozinha, perguntou a ela o que a mesma fazia para que o esposo sempre a procurasse, sempre desejasse estar a seu lado, enquanto que ela, Obá, sofria pelo desprezo que lhe dispensava seu amado esposo. Também disse que sentia vontade de dar um filho a Xangô, mas esse não a procurava para nada, e quando ela dele se aproximava, era repudiada de todas as formas possíveis. Então, perguntou a Oxum o que ela fazia, pois também faria ela Obá, não importando o que fosse para que pudesse ser ao menos um pouco amada pelo marido.

Oxum, muito faceira, se mostrou consternada com o sofrimento de Obá e passou a lhe ensinar o que fazia para manter Xangô sempre apaixonado, mas, não sabia Obá, a armadilha que Oxum lhe preparava. Assim sendo, aproveitando-se de que estava com um pano marrado na cabeça e que esse cobria sua orelhas, Oxum disse a Obá:

“Não está vendo esse pano amarrado em minha cabeça e rodeando todo meu rosto? Então; cada vez que minha orelha cresce, eu a corto e faço uma sopa para Xangô e assim sendo, ele se mantém apaixonado por mim”!

Obá, que já não cabia mais em si de amor pelo marido e sofrendo terrivelmente com o desprezo do mesmo, não pensou duas vezes, disse a Oxum que ela queria preparar a comida de seu esposo naquele dia e Oxum prontamente cedeu, pois fazia parte de seu plano, e Obá então não titubeou e decepando sua orelha esquerda, preparou um ensopado para seu esposo.

Mas, ao ver a comida que lhe trazia sua mulher, ele tomou nojo dela, pois a orelha significava para algumas tribos, a representação do órgão genital feminino, e assim sendo Xangô, culminou por expulsar Obá de seu reino, amaldiçoando-a e a proibindo de pisar naquelas terras para sempre.

E assim saiu Obá, desiludida e chorando copiosamente, pois que havia sido vítima de uma armadilha de sua rival Oxum e culminara por receber total repúdio do esposo que tanto amava. Não sabia ela que na verdade, Oxum fez aquilo, pois mesmo sendo mais bonita que Obá, sentia inveja da mesma e temia que Xangô culminasse por preferir Obá, mas, também Oxum não imaginava que Xangô não queria Obá, por ser ela, mais baixa e gorda, e ele, preferia a vaidade a qualquer outra coisa.

Assim sendo, ia Obá caminhando em prantos, quando se deparou com Oyá e essa perguntou-lhe por que das lágrimas, e Obá a colocou a par da situação e da vergonha que passara. Oyá se revoltou com tamanha injustiça e imediatamente arquitetou um plano para que Obá pudesse se sentir vingada:

Como sabia o caminho que Oxum percorria todos os dias para ir até o rio se banhar, ela, Yansã, pegou uma abóbora e a cozinhou de forma que ficasse pronta pouco antes de Oxum passar, feito isso, a abóbora bem cozida e ainda fervendo, Oyá cavou um buraco e ali colocou a abóbora e apenas camuflou com um pouco de folhas para que Oxum não se percebesse. E assim quando Oxum pisou, enfiou o pé naquele buraco e queimou-o profundamente.

Assim, sentindo-se vingada, Obá recomeçou sua caminhada, agradecida a Yansã pela ajuda, e seguiu em frente, e foi adentrando pela mata, até que em determinado momento, não sabia mais como sair daquele lugar. E assim passaram-se dias e ela sem poder sair daquela mata e a fome a castigava terrivelmente.

Certo dia, Odé, o Grande Caçador, aquele que caçava para alimentar todas as tribos da África, a encontrou, e reconhecendo-a e vendo que ela chorava, perguntou o que lhe acontecia.

Ela prontamente lhe contou o que lhe fizera Oxum, do repúdio que sofrera de seu marido Xangô, e de como Oyá a ajudara a se vingar. Porém, Odé notou seu semblante carregado e com traços estranhos e entendeu o que se passava, e perguntou Obá se ela tinha se alimentado, ela disse que não e que a fome a castigava também, assim Odé a alimentou, e antes de partir, disse a ela que deixaria ali, um arco e flechas para que ela pudesse caçar e não mais sentir fome.

Obá agradeceu a Oxossi, mas disse a ele que infelizmente não sabia caçar e assim sendo, não podia aceitar seu presente, pois que nada poderia fazer. Odé compadecido com toda aquela situação, imediatamente se ofereceu para ensiná-la a caçar e assim o fez. Ensinou Obá a caçar e ela nunca mais passou fome.

Hoje em dia, nas casas de candomblé, ela quando dança, imita os gestos de uma guerra, pois que é guerreira, usa adaga e escudo, e tampa o local da orelha decepada, como a sentir vergonha do ato de amor por seu marido, em determinado momento, ela assume sua forma de caçadora e dança imitando os movimentos da caça, aprendidos com Odé, e ao brandir seu Ofá, (arco e flechas), traz a fartura para aquela casa e para todos que a prestigiam.

Seu dia de culto é a Quarta-Feira.

Seus animais de sacrifício são: cabra, galinhas, galinha da angola, pata, e pombos.

Sua comidas são: Acarajé, amalá, feijão fradinho, ebô, acaçá, arroz.

Saudação: Obá Xirê.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi: Odé Mutaloiá.

odemutaloia@hotmail.com




terça-feira, fevereiro 24, 2009

O BOM MÉDIUM SE DOUTRINA

Nossa mediunidade é antes de tudo, um dom que Deus nos concedeu para que possamos levar segurança, paz e traquilidade às pessoas que necessitem. Frequentemente somos solicitados a intervir em assuntos os mais variados, e sempre nos deparamos com pessoas conturbadas, aflitas, perdias em meio a um mar de percas, desespero, dor e sofrimento.

Nesses momentos é que mais precisamos de nosso equilíbrio, de nossa doutrina pela qual passamos durante nosso aprendizado espiritual, e nossa preparação para o sacerdócio. Temos que saber distinguir as coisas para que possamos encaminhar as pessoas para o que mais necessitam em seus momentos de dor e sofrimento, independente de quais sejam esses.

Mas, se nos falta o equilíbrio, como vamos levá-lo a quem sofre? Sempre nos deparamos, por exemplo, com pessoas que sofrem perseguições de inimigos, visíveis ou invisíveis, e nesse momento a calma, o bom raciocínio é fundamental para um médium.

Não podemos induzir as pessoas à vingança ou qualquer outra coisa que não seja o perdão e o amor incomensuráveis. Pois se agirmos assim, estaremos contradizendo todos os ensinamentos que nossos zeladores, Guias e Orixás nos trazem diariamente. Claro que em algumas situações, temos que tomar medidas para defendermos nossos consulentes, filhos e filhas de santo e até mesmo nossa família, mas, isso não nos dá em hipótese alguma o direito de fazermos justiça com nossas mãos.

Quando encontramos situações em que alguma pessoa nossa se encontra perseguido por forças inferiores, temos que induzirmos a esse ser, a orar e a perdoar seu perseguidor, pois mal muito maior ele, o perseguidor, comete contra si mesmo. Façamos obrigações para neutralizar as forças dos inimigos e não para aumentarmos uma guerra já existente.

Quem lida com a Umbanda e o Candomblé, sabe perfeitamente que as demandas, são batalhas ferrenhas e horríveis, travadas no plano espiritual, o que causa danos aos dois lados, afinal estamos lidando com forças muito além de nossa capacidade mortal e limitada.

Temos de nos lembrar que como médiuns, somos ferramentas das quais se utilizam nossos mentores e orixás, para que possam fazer a caridade a quem precise, e se essa ferramenta não estiver em condições de uso, eles não podem ajudar aos nossos semelhantes.

E como mantermos essa ferramenta em plena condição de uso? Simples: policiando-nos com relação aos nossos sentimentos, colocando o amor e o perdão como bases inatingíveis por espíritos inferiores, nos doutrinando para que ao se aproximarem de nós, os espíritos sem luz, encontrem uma barreira às suas forças negativas e, sobretudo, que encontrem um coração repleto de amor e perdão e assim sendo, eles se afastarão de nós, e essas energias positivas que carregamos em nosso peito, nossa mente e nossa alma, os conduzirá a locais onde espíritos de luz poderão encaminhá-los para que possam se refazer através do arrependimento, e conseguirem alcançar boas energias, e consequentemente, em um breve futuro, passarão a trabalhar em prol da humanidade e não contra ela.

Doutrinemos-nos, aprendamos a afastar de nós as energias negativas, e teremos muito mais êxito em nossa jornada. Lembremos da máxima de São Francisco de Assis: “É PERDOANDO QUE SE É PERDOADO”.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi Lambanranguange: Odé Mutaloiá.

odemutaloia@hotmail.com


segunda-feira, fevereiro 09, 2009

A DISCRIMINAÇÃO RELIGIOSA É CRIME, MAS E A DISCRIMINAÇÃO INTERNA, NÃO SERIA CRIME CONTRA NOSSA PRÓPRIA FÉ?

Muito temos ouvido falar na discriminação religiosa, na visão jurídica, sendo o autor do ato, passivo de sanções previstas em lei. Claro que é válida tal atitude, e temos sim, que combater judicialmente tais arbitrariedades que vão contra a Carta Máxima de nossa Nação, a Constituição Federal.

Porém existe um “crime” praticado dentro das casas de santo, e que a maioria de nós se cala perante a mesma. A discriminação interna! Sim, ela existe!

Sempre que algum irmão está tocando para Orixá, a fim de festejar algum de nossos Deuses, do panteão maravilhoso, que nos foi dado por nossos antepassados, ou mesmo quando está tirando um yawô, são comuns as rodas de bate papo entre alguns zeladores e até mesmo filhos de santo. E ali, para nossa tristeza ocorre a discriminação. Falam mal da casa e de outras casas e sacerdotes, criticam uns aos outros, falando desse ou daquele ritual d’alguma casa, e de algum zelador ou zeladora.

Se uma pessoa não alcança seus objetivos em determinado assunto, junto com algum zelador, não faltam irmãos para caluniarem, dizerem que fulano não sabe o que faz etc. e tal.

Temos que coibir tais atitudes. Temos que nos unir, independente de nação ou da procedência de nossos irmãos. Se agirmos com sabedoria, poderemos dar combate ferrenho à discriminação que sofremos por parte de pessoas evangélicas, que usam de nossos pontos fracos para nos agredirem sem dó nem piedade.

Temos que levar em conta que cada um pratica o Candomblé que aprendeu com o sacerdote ou sacerdotisa que o iniciou, e essa pessoa por sua vez, aprendeu com quem o iniciou.

Nossa religião é hierarquia e ancestralidade, assim teremos sempre pontos de divergência entre as centenas de milhares de casas de santo espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Dificilmente veremos os rituais, ao menos alguns deles, serem feitos da mesma forma, sempre sofrerá variações por mínima que seja, pois cada um aprendeu de uma forma.

Não nos compete dizermos que casa tal, ou sacerdote tal, esteja certo ou errado, até mesmo pela miscigenação da qual se formou o Candomblé. Temos que nos lembrarmos que os africanos para aqui vieram, oriundos de diferentes partes de sua terra natal, e lá, os rituais litúrgicos, se diferenciam, dado à localização de tal aldeia ou reino.

Então, me pergunto: qual de nós pratica o culto aos Orixás, da mesma forma que eles? Posso afirmar que nenhum de nós, pois para início, as tradições eram passadas apenas de forma oral, e assim, como em outras religiões e culturas muito se perderam. Afirmarmos o contrário seria querer nos intitular os “guardiões da sabedoria” e isso estaria muito longe da realidade e, pertíssimo da soberba e arrogância, fatos, aliás, que contrariam a lei de nossos Orixás.

Devemos nos unir, buscarmos formas de nos ajudarmos mutuamente, claro que não sairemos distribuindo nossos segredos sem saber para quem estamos dando tais riquezas, mas, se conhecemos a pessoa, se sabemos que ele realmente é um zelador, por que não nos ajudarmos mutuamente? Não seria esse o caminho para o respeito que tanto desejamos para nossa fé?

Queridos irmãos, busquemos apoio um no outro, façamos das dificuldades de um, a dificuldade de toda uma religião, afinal, independente de nação, de casa, somos todo membros de uma só tribo.

Se somos de uma nação e vamos mexer em algum fundamento de outra, por que não buscarmos ajuda de outro zelador que seja daquela nação e assim sendo, conhece seus segredos? Mas, se algum irmão vai dar uma ajuda pertinente a sua nação, é importante que essa ajuda seja dada de forma correta e coesa, além de também ser de forma secreta para que não coloquemos nossos irmãos em situações delicadas. E não devemos também, buscarmos glórias por aquilo, pois que essa pertence a nossos Orixás que sem os quais nada saberíamos.

A discriminação interna, é no mínimo uma aberração perante nossos Orixás, estamos cometendo erro terrível perante eles, podem ter certeza, pois que quando seus sacerdotes vieram para nossa terra, como escravos, não se preocuparam em dizer que essa ou aquela gente estava errada em sua forma de cultuar os antepassados. Ao contrário: se uniram em prol de uma mesma necessidade! Aí é que entra a verdadeira política, que visa o bem de uma comunidade e não apenas interesses particulares e pessoais.

De nada adianta combatermos a discriminação por parte de outros seguimentos religiosos, se continuarmos a nos discriminarmos.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi: Odé Mutaloiá.

odemutaloia@gmail.com

odemutaloia@hotmail.com

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

FÉ AMOR E DEDICAÇÃO, RECEITA INFALIVEL

Vivemos em um mundo onde a violência e o desprezo pelo ser humano esbarram na beira do inimaginável. Tornou-se corriqueiro ligarmos nossa T.V e assistirmos notícias de carnificinas que somente tínhamos contatos pelos livros da história da humanidade. A sensação que temos é que o ser humano está regredindo aos tempos em que a espada era a única lei verdadeira e que as pessoas respeitavam.

Isso entristece a qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade, uma vez que fomos criados para zelarmos pela vida, seja ela, nossa, de nossos entes queridos ou mesmo de nossos vizinhos, amigos e até mesmo, desconhecidos ou de nossos inimigos.

Com certeza esses atos de selvageria, nos afastam de uma rotina que tanto sonhamos: nossos filhos brincando em paz na praça de nosso bairro, nossos passeios com a pessoa amada, apenas para apreciarmos a luz do luar, nossas noites de conversas na calçada de nossas casas até altas horas com nossos vizinhos mais próximos.

Uma pena que assim estejam às coisas nesse mundo. O mesmo mundo que Olorúm (Deus), criou, para que pudéssemos contribuir com a elevação espiritual nossa e do restante de suas criaturas.

Nada frustra mais, que assistirmos em um programa de televisão, que um jovem, uma criança, uma pessoa qualquer, foi vitima das chamadas “balas perdidas”, que um pai de família teve sua vida ceifada por causa de um simples par de tênis, ou apenas uns trocados, que uma mãe foi assassinada por algum erro que ela nem mesmo sabia que existia...! Esse meus irmãos amados, este é o mundo em que vivemos!

Vemos vários profissionais, como juristas, policiais, jornalistas e outros, tentarem mostrar alguma solução para tanta dor e lágrima. Alguns mais exaltados defendem a pena de morte, (aqui não condeno nem tão pouco compactuo com qualquer conjectura ou modo de pensar, reservo-me o direito de me manter neutro nesse aspecto).

Se a pena de morte resolveria ou não a questão, não vamos aqui discutir, pois ainda prefiro a máxima de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Atire a primeira pedra, aquele dentre vós que nunca pecou”. A única coisa que enxergo através de meu humilde pensamento, é que precisamos mais de Deus em nossas vidas. Não digo somente em nossa religião, mas em todas elas. Creio que uma pessoa que realmente ama a Deus e teme sua ira, jamais tentará contra a vida de outra.

Aqueles que teem de quarenta anos para mais, se lembram de que fomos criados dentro de preceitos religiosos, e assim sendo aprendemos a amar a Deus acima de qualquer coisa nesse mundo. Mas, muito me entristece hoje em dia, ao ver que falta aquele: FICA COM DEUS! VÁ COM DEUS! DEUS O AJUDE, dentre tantas outras.
E com isso, enredados nesse mar de sangue que se tornou a vida, vamos digladiando, dia após dia contra um inimigo comum: as forças das trevas, que se alimentam do sangue derramado, que induz um pai de família e beber exageradamente, e assim, embriagado, bater em sua esposa e seus filhos, forças malignas que usam de todos os artifícios possíveis e impossíveis, coisas que nossa mente jamais será capaz de imaginar, para corromper nossos jovens, levando-os para o mundo das drogas e do crime. E as mesmas forças que se alimentam das energias negativas daqueles cujo oficio é ceifar vidas.

Em meio a tanta dor, temos uns aliados maravilhosos, que podemos usar para dissipar as trevas não somente de nossas vidas, mas do planeta: A FÉ, O AMOR E A DEDICAÇÃO!

Sim com esses elementos, podemos dissipar as trevas, contribuir para que nosso mundo tenha mais paz um dia, basta que cada um de nós, tire cinco minutos por dia para orarmos a Deus e a nossos Orixás e Guias Protetores, e veremos que as coisas são capaz de mudarem sim.

Conclamo assim, a todos os Candomblecistas e Umbandistas, a fazermos preces diárias em prol da humanidade e do amor e perdão. Ao iniciarmos nossos trabalhos nos templos de Umbanda, façamos uma oração especial em prol da paz no planeta, peçamos aos nossos Guias de Luz para que intercedam nas prisões, nos lares, nas calçadas, enfim, em todos os lugares do planeta e que ali estando, transmitam aos corações raivosos, a paz, aos corações tomados pelo sentimento de vingança, que sejam transmitidas vibrações de perdão e amor, e aquelas mentes que maquinam contra a vida dos outros, que elas recebam um Flesch por menor que seja do Imenso Amor e Poder de Deus, e assim optem por abandonarem aquela ação prestes a acontecer.

Solicitemos aos nossos irmãos de luz, que retirem do meio dessas pessoas, aqueles irmãos sem luz, obsessores e os encaminhem para algum lugar onde possam receber tratamento especifico para seu caso.

Peçamos que os vampiros espirituais, que se dedicam a sugar a energia dos encarnados e dos desencarnados, possam ser desviados dos caminhos de suas vítimas e assim sendo que as mesmas tenham condições de seguir em paz na sua jornada terrena, ou de encontrarem a paz em nossa pátria espiritual.

Imploremos para que os governantes encontrem em Deus e nos irmãos superiores, forças para dirimirem suas questões sem guerra e sem derramamento de sangue.

Façamos esses e outros mais pedidos em nossas sessões de Umbanda, mas também em nossas casas, tiremos cinco minutos de nossas vidas para esse fim.

Ao arriarmos uma comida para Oxalá, Yemanjá, Oxum, Ibeji e outros Orixás, supliquemos para essas finalidades, e assim com a força de uma corrente única, veremos essa triste realidade mudar.

Lembremo-nos sempre de que Deus, nossos Orixás e Guias de luz, estão à espera de nossos pedidos para que possam interagir em favor nosso e de toda a humanidade.

Oremos para aquele nosso irmão que nos odeia para aquele que nos julga seu inimigo, imploremos aos Ministros de Deus, nossos Orixás, e a paz será uma constante em nossa vida e em toda a terra.

Lembremo-nos de que SOMENTE DEUS POSSUI A VERDADEIRA LEI E A JUSTIÇA PERTENÇE SOMENTE A ELE.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi Lambanranguange: Odé Mutaloiá.

odemutaloia@hotmail.com

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quarta-feira, fevereiro 04, 2009

FANATISMO É PREJUDICIAL À NOSSO ENGRADENCIMENTO ESPIRITUAL E MATERIAL.

É comum vermos as pessoas e espelharmos suas atitudes no arquétipo de seu Orixá. Temos várias experiências que mostram que nossos Orixás influenciam sim, na vida de seus eleitos e também em suas atitudes.

Muitas vezes, porém temos a mania de tudo encararmos como arquétipo de santo e com isso nos esquecemos de que as pessoas teem sua natureza própria e que cada um age conforme as ações de seu dia a dia. Segundo a lei da física, toda ação tem uma reação e assim sendo não podemos condicionar todas as atitudes das pessoas com seu santo.

Temos que nos ater para que não caiamos na garra do fanatismo e assim, colocarmos as pessoas no mesmo nível dos Orixás, nem mesmo que esqueçamos que antes de tudo são seres humanos e assim sendo, compostos de erros e acertos.

Se uma pessoa é aguerrida e até mesmo positiva demais. Logo pensamos: é filho deste ou daquele Orixá. Se por outro a pessoa tende a gostar de uma conversinha, dizemos: com certeza é filho de sano tal. Porém nos esquecemos de analisarmos sua natureza própria. Claro que algumas atitudes são sim, frutos da natureza de seu santo, existe alguns detalhes em determinados filhos de determinados santos, que jamais encontraríamos em filhos de outros Orixás. Mas nem tudo corresponde ao arquétipo dos santos.

Temos que aprender a olhar as pessoas com olhos de sacerdote sim, mas não podemos nos esquecer jamais que o ser humano é uma complexidade inigualável e assim sendo, sua natureza pode mudar em determinadas situações.

Nem todos que são obesos, por exemplo, são filhos de Xangô como afirmam muitos, e nem todas as mulheres de Oyá traem seus maridos, de conformidade com a crença errônea de algumas pessoas. E por outro lado, nem todos os filhos de Exú são usuários de drogas.

O que acontece, é que o ser humano ao nascer é uma folha de papel em branco, e tanto nós quanto a vida, vamos escrevendo no decorrer de seu desenvolvimento, o seu futuro. Se uma pessoa cresce sem amor, sem cuidados maiores, como querermos que tenha essa ou aquela personalidade, independente do santo que o escolheu?

Obviamente que se a pessoa cresce em um lar sem harmonia, por mais que seja filho, por exemplo, de Yemanjá, poderá sim, ter atitudes totalmente ímpares de sua mãe.

O fanatismo nunca foi nem nunca será boa companhia para quem quer que seja independente de sermos sacerdotes de Umbanda, Candomblé, Cartomante, ou qualquer outro. Ao contrario, o fanatismo nos bitola, nos deixa sem a mínima capacidade de discernir entre o certo e o errado.

Acautelemos-nos, pois com essa terrível arma que pode perfeitamente ser apontada contra nós mesmos.

Outro fator, é que se uma pessoa se dedica, por exemplo, a escrever um livro, logo alguém diz: “claro! É filho de tal santo”! Eis aí outro equivoco inenarrável! Claro que a espiritualidade nos orienta e nos auxilia em varias tarefas, mas temos também que nos lembrarmos de sua capacidade como ser pensante e parte do imenso cosmo e da natureza no geral.

Não podemos simplesmente oferecer crédito total à espiritualidade, afinal: onde ficaram as capacidades do ser humano? Não é possível a quem quer que seja, sobreviver vinte e quatro horas por dia apenas em comunicação com a espiritualidade! Existem nossos momentos e neles somos capazes de realizarmos qualquer coisa que desejarmos de verdade.

Atemo-nos então a creditarmos aos espíritos seus méritos sim, mas não nos esqueçamos de que somos seres racionais e assim sendo capazes sim de realizarmos nossas obras.

Não quero com essas palavras, desmerecer a espiritualidade e sua incomensurável ajuda aos seres humanos. Desejo apenas que nos lembremos que como seres racionais, somos sim, capazes de muitas coisas.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi: Odé Mutaloiá.

odemutaloia@hotmail.com

terça-feira, janeiro 27, 2009

PARA SERMOS ZELADORES TEMOS QUE SER PREPARADOS.

Infelizmente nos dias atuais, mais e mais pessoas que se autodenominam zeladores e zeladoras de Orixá, abundam o cenário da maravilhosa religião que tanto amamos. Acontece que vão em busca de ‘conhecimentos “(?) em livros que prometem ensinar jogo de búzios, e até mesmo fundamentos secretos de nossa religião, e assim saem por aí enganando as pessoas, se dizendo preparados nessa ou naquela casa, e muitas vezes apenas ouviram citar os nomes de zeladores conceituados, e assim terminam por macular o nome de nossos antepassados e de nossa fé.

Acontece que nossos segredos não são ensinados em livros, revistas e afins, mas são passados de pai para filho e somente os verdadeiramente iniciados recebem seus direitos sacerdotais e assim mesmo se tiverem o que chamamos de Balaio de Axé, ou seja: seu santo traz aquele cargo.

Para que possamos ser zeladores de santo, somos preparados em um período nunca inferior a sete anos, e durante esse tempo aprendemos todos os atos sagrados de nossa religião, sendo uma gota aqui e outra ali, pois nada é passado sem que a pessoa esteja no tempo certo para aprender.

Para que possamos jogar búzios, são feitos rituais muito sérios e esses somente são feitos na obrigação em que nós, rodantes, ou seja: que incorporamos nosso Orixá, recebemos nosso Deká, ou seja: Nossos Direitos Sacerdotais, e assim mesmo, ainda passamos anos e anos dando satisfação a nosso pai ou nossa mãe de santo de nossas atitudes para com os orixás.

Ninguém, ninguém mesmo, recebe seu jogo de búzios antes da hora, e jogar búzios não consiste apenas em decorar quedas e sairmos por aí apenas pra ganhar dinheiro.

Somos muito bem instruídos ao recebermos nosso Deká, pois jogo de búzios é um contato direto Ayê – Orúm, ou seja: Terra com Céu, numa linguagem mais clara, o jogo de búzios é a ponte de contato de nosso mundo com o mundo sagrado dos Orixás.

É importante que antes de adentrarmos em uma casa de santo, saibamos a procedência de seu zelador e que possamos obter o maior número possível de informações sobre ele e sua casa.

O que encontramos hoje em dia, são pessoas que, na melhor das hipóteses são recém iniciados nos mistérios dos Orixás, não tendo a mínima capacidade para exercer o sacerdócio, e em outros casos e nem por isso menos ou mais agravantes, pessoas que jamais passaram por nossos fundamentos, abundam os anúncios de jornais e outros meios a fim tão somente de ludibriar as pessoas de boa fé, que buscam ajuda para seus problemas.

Se por acaso alguma pessoa desconfiar da procedência de alguma casa, basta procurar uma das federações que existem na cidade e ali verificar se essa casa e esse sacerdote possuem licença para funcionamento.

O mesmo acontece com cartomantes e afins, pois que todos nós que praticamos qualquer tipo de ato pertinente a espiritualidade, somos obrigados a mantermos vínculo com alguma federação.

Não precisamos ter um terreiro aberto para que tenhamos a necessidade de um alvará de federação, basta termos até mesmo em nossa residência o habito ou algum cômodo para atender clientes, seja com incorporação, búzios, cartas, (tarô, baralhos: cigano, dos anjos ou outros), runas ou qualquer outro processo de atendimento que ali deve conter um alvará religioso, e se aquela pessoa se desloca de sua cidade ou estado, é obrigatório que leve sua carteira de identificação fornecida pela federação a qual é filiado, e, lá chegando procure a federação mais próxima para dar satisfação dos atos que ali irá praticar.

O mesmo devemos fazer quando uma pessoa se apresenta em nossa casa com título de sacerdote. Se desconfiarmos de alguma coisa, peçamos que nos apresente a carteira de identificação da federação de sua localidade, pois se ele é realmente um sacerdote, terá tal documento. Temos que entender que tais atitudes são para que possamos moralizar nossa religião e o bom nome de nossos antepassados.

Já presenciei casos em que pessoas se diziam oriundas de casas de zeladores conceituados e após algumas poucas conversas, provaram que tudo não passava de uma tentativa de enganar.

Acontece queridos, que nós zeladores temos como sabermos se uma pessoa realmente é oriunda da casa que se diz ser. Existem determinados segredos que somente sendo de um certo templo poderemos afirmar ou não, e aí é que está a grande diferença.

Por outro lado, as federações deveriam se preocupar mais em investigar cada casa, saber da procedência daquele zelador ou zeladora e assim, caso seja provado a sua incompatibilidade com o sacerdócio, que sua casa seja fechada em prol do bom nome de nossa fé.

O que acontece nos dias de hoje é que muitas pessoas andam enganando, mentindo, tão somente para explorar as pessoas em seus momentos de dor e sofrimento. Jamais uma federação proibirá um zelador de cobrar seu chão, o que as federações orientam é com relação à exploração da boa fé das pessoas.

Moralizar nossa religião é preciso, pois o que vemos hoje em dia são pessoas se auto intitulando isso ou aquilo, promovendo verdadeiras anarquias e enlameando o nome de uma religião muito mais antiga que o cristianismo, que é o culto aos Orixás.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi: Odé Mutaloiá.

odemutaloia@hotmail.com

odemutaloia@gamil.com

segunda-feira, janeiro 26, 2009

QUEM DISSE QUE A HUMILDADE E A VERDADE NÃO EXISTEM MAIS?

Como sacerdote, viajo todo o Brasil atendendo pessoas que solicitam a interferência dos Orixás em suas vidas, a fim de ajudarem a solucionar vários problemas em setores variados. E em cada estado por onde passo, sempre que o tempo favorece dado aos exercícios do sacerdócio, tento visitar algumas casas nas quais sou convidado para algum evento religioso.

Estando em Belo Horizonte, fui convidado pelo Alabê Davi de Odé, a visitar a casa de seu zelador, Kafunanguê, e qual foi a surpresa que Minas Gerais guardava para mim...!

Sábado, dia 25 de Janeiro de 2009, me dirigi a essa casa de Obaluayê, situada no Bairro Santa Lúcia, em Belo Horizonte, Orixá que amo em especial, a fim de assistir a um festejo em homenagem a Oxossi, pela passagem de seu dia. Ao chegar nesta casa, já me deparei com a primeira surpresa: humildade, e não ostentação. Por ali fiquei conversando com o ogã Davi e apreciando a energia que emanava daquele templo.

Como sacerdote, não pude deixar de observar que as energias ali eram de muita paz, amor, carinho dedicação, algo que faz bem a todos, somente de pisar em seu terreno. Observei a distribuição das Insabas sagradas, algo que se deu com o maior respeito, uma vez que aqueles que se dedicavam a tal ato, não conversavam nada sobre o mundo, mas sim, elevavam seus pensamentos aos céus em busca das energias dos Orixás a fim de manterem a positividade dentro do Ilê.

Observei que mesmo aqueles como o Ogã Davi, que saíam a fim de arejar um pouco a mente, se preocupavam em manter uma sintonia com o ato que ali seria realizado, evitando assim brincadeiras e qualquer outra coisa que não fosse coesa e coerente com os rituais, coisa que muito pouco se vê.

Ao se aproximar à hora do evento religioso, mais uma surpresa: as filhas e filhos de santo se dedicavam em formarem suas correntes, sem conversa, sem risos, apenas com seus rostos estampando a mais pura fé e amor em seus Orixás.

Finalmente os atabaques anunciaram o início do festejo. Observei que o zelador adentrou em seu salão, e com muita fé, sem mesmo desviar seu olhar para outro local que não fosse o padê de exú que ali havia sido depositado com o mesmo amor e dedicação por alguns filhos de santo.

Então após os ritos iniciais, começou o festejo tão aguardado por todos nós que ali estávamos. E nesse momento, revela-se a maior e feliz surpresa para qualquer sacerdote: vi caboclos se incorporarem de forma exata, sem maiores delongas e com tanta firmeza que suas energias podiam ser sentidas por quem quer que ali estivesse.

Após os caboclos serem vestidos e aparados pela Mãe Ekedi que ali estava a sua disposição, retornaram para a sala com as comidas a serem oferecidas na belíssima mesa que fora preparada para os caboclos. Inclusive essa mãe Ekedi que, diga-se de passagem, é de Yemanjá, me chamou a atenção dado a sua humildade e carinho que estampavam em seu rosto.

Com as comidas arriadas e as rezas de praxe proferidas, vi caboclos dançarem e até mesmo se dedicarem a descarregar todos que ali estavam, com tanto amor que era em alguns momentos, difícil até mesmo de conter a emoção.

Houve um fato em particular que me chamou a atenção: os caboclos não bebiam em exagero, apenas tomavam goles de Jurema, servida em coités e nada de excesso de bebidas, apenas o suficiente para que pudessem absorver a força que ali estava naquela bebida sagrada.

Em dado momento, o Caboclo Lua Nova subiu e incorporam-se os boiadeiros, afinal casa de santo não faz um samba de Caboclo sem essas entidades. Aí então tive o privilégio, a honra de conhecer o Boiadeiro do zelador, chama-se “Boiadeiro Leão do Norte”. Quanta humildade e sabedoria pude observar em suas palavras e atitudes. Pude conversar com ele mais de uma hora corrida e vi que ali estava uma entidade que apesar da imensa sabedoria, tem somente uma preocupação: honrar o nome de nosso Pai Oxalá. Nem mesmo esse boiadeiro bebia em excesso, e sua humildade era tão grande que a tudo dizia com suas palavras que assim podiam ser traduzidas: “honras e glórias, somente Deus e os Orixás merecem”.

Em dado momento nossa conversa adentrou para os caminhos da imensa preocupação que muitas vezes consome a mente e o corpo das pessoas, e ele me surpreendeu com uma frase que por mais que viva nunca esquecerei: “Aconselho a todos a serem como eu: nunca me desesperei com nada, pois sei que depois de uma noite vem o dia e depois do dia sempre tem a noite”, ou seja: por mais que os problemas existam, a vida continua e se tivermos fé em Deus tudo se resolve.

Após o término da sessão, pude finalmente entabular conversação com o zelador da casa, meu irmão Cafunanguê e vi que sua humildade transpassa os de muitos de nós. Vi uma pessoa que somente se preocupa em servir o Orixá, em buscar uma solução para os problemas daqueles que recorrem a sua interseção junto aos nossos Santos para o auxilio de seus problemas. Notei que ele, Kafunanguê, não se reportou a quem quer que fosse em momento algum, com soberba e orgulho, mas sim, com a humildade que deve ter um verdadeiro sacerdote.

Conversamos até altas horas da noite, e cada assunto que abordávamos, ele sempre dizia de seu amor aos Orixás, horas com palavras, horas com gestos que demonstravam tanto amor quanto a muito tempo não via dentro de um ser humano.

Outro fator que me chamou e muito a atenção, foi que os ogã da casa, não beberam nada em momento algum a não ser água, nem mesmo a Jurema dos Caboclos eles provaram.

Relato esses fatos queridos, não no intuito de jogar confetes em quer que seja, pois os que me conhecem, sabem que jamais me preocupo em falar seja lá o que for para agradar a quem quer que seja ao contrário: falo o que sinto e penso não me importando com outra coisa que não seja a verdade, e também sabem que minha única preocupação é com o nome de minha religião e de meus Orixás. Se relato esses fatos é porque tão somente desejo mostrar o que há muito tempo venho proclamando:

Uma casa de santo se faz com seriedade, com amor e com muita humildade acima de tudo. Fui iniciado nos preceitos dos Orixás, sendo ensinado que por mais que tenhamos anos e anos de santo, nunca seremos mais que servidores de nossos orixás. Aprendi que um zelador vive para servir tanto seu Orixá, como os de seus filhos de santo, que somos hierarquicamente superiores a nossos filhos, mas que perto de seus orixás, somos como uma formiga perto de um elefante, afinal são seres que governam a natureza e com certeza nos conhecem muitíssimo bem.

Parabenizo aqui ao meu irmão Kafunanguê por sua casa e rogo à Olorum e a todos os Orixás, para que possa essa casa se erguer cada vez mais e assim, dar seguimento as raízes deixadas para nós pelos africanos que aqui plantaram seu axé.

Parabéns meu irmão, e que Obaluayê te cubra de bênçãos e prosperidade,e que sua vida possa ser tão prospera quanto os grãos de areia em uma praia.

Parabéns Alabê Davi! Parabéns por sua conduta e a de seus irmãos e filhos e que sua casa possa sentir toda a prosperidade de Odé meu pai.

ZAMBI NO AKUATESSÁ!

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi Lambanranguange: Odé Mutaloiá.

odemutaloia@hotmail.com

domingo, janeiro 25, 2009

EXÚ O GRANDE GUARDIÃO

Muitas são as pessoas que louvam essa entidade nas casas de Umbanda e Candomblé, mas poucos são os que o compreendem em sua forma real. Confundem normalmente essa entidade com o diabo, o capeta do cristianismo, mas na realidade, sua função é muito mais importante do que pensam todos.

Exú para ser mais compreendido deve-se primeiro ter a explicação correta de seu nome: essa palavra em yorubá se traduz como esfera e não como capeta. E sua função dentro dos templos religiosos é algo de suma importância e de um valor incomensurável: é ele quem guarda os portais que dão acesso ao nosso mundo, esses portais são utilizados pelos espíritos para virem e voltarem de nosso mundo.

Sabemos que o universo paralelo, existe e simplesmente vivemos em nosso dia a dia sem termos a noção do que acontece em nossa volta, sem nos darmos conta de que seres invisíveis estão a nossa volta noite e dia, trabalhando em nosso favor. Porém para que eles possam permanecer ao nosso redor, utilizam de portais para irem e virem conforme suas necessidades e permissão. E é justamente aí que exú desempenha seu papel principal, ele guarda essas portas a fim de que forças terríveis não invadam nosso mundo e consumam de vez com a humanidade.

Que temos uma alma e que essa é imortal, todos sabemos, que após nosso desenlace nos transformamos em eguns, conforme nossas atitudes, também sabemos, mas, e para que esses eguns não atravessem as portas sem permissão? É aí que esse grande guardião entra: ele abre ou fecha as portas conforme a solicitação de esferas, inclusive a nossa.

Sem exú não teria como existirem as casas de santo, nem mesmo as de Umbanda, uma vez que ao iniciarmos os trabalhos, eles se apresentam em meio a nós e se incumbem de purificar o ambiente a fim de que nossos guias de luz e mesmo nossos Orixás possam trabalhar em nosso favor. Claro que alguns perguntarão: “mas se existem esses guardiões, por que volta e meia nos deparamos com pessoas vítimas de entidades inferiores”? A resposta é simples:

Como seres encarnados e utilizadores dessas forças astrais, somos responsáveis direitos por tudo que acontece em nosso mundo. Se chamamos uma entidade para ajudar um enfermo, um pai de família desempregado, essa entidade virá e trabalhará sim em prol desse pedido, não impostando se ela for um exú, caboclo, preto-velho ou mesmo um egum. Mas, por outro lado se utilizamos essas portas pra chamarmos entidades para destruírem a vida de outros, virão seres inferiores, infernais mesmo e aí desencadearemos forças que jamais poderemos controlar. E para desmancharmos algum trabalho desse gênero, é que entra nosso Guardião o Exú.

Sendo o primeiro a ser homenageado, é ele quem se incumbirá de abrir os portais para que esses seres sejam levados de volta para seus habitats ou mesmo para prisões onde ficarão a espera de julgamento e formas de se redimirem do mal que fizeram aqui em nosso mundo.
Se compararmos nosso mundo com o mundo dos espíritos, poderemos observar que lá existem exércitos assim como os daqui e neles, a exemplo do que acontece nos exércitos terrenos, existem os sentinelas e os guerreiros e cada um desempenha sua função para que possa seu lado sair vencedor.

Exú em nada pode ser lembrado como um guerreiro dos infernos, mas sim, como um guardião dos mistérios de Deus, aquele que guarda os segredos de nossos Orixás, caboclos e Pretos velhos, e também como disse anteriormente os portais que ligam os dois mundos.

Ainda perguntarão os céticos: “mas se exú não é o diabo, por que se apresentam em sua estátuas, com chifres e em seus assentamentos com tridentes”?

Muito simples: a sua aparência com chifres em suas estátuas são apenas formas dadas por eles mesmos a fim de mostrem sua força. O chifre, corno, ou seja, lá como chamamos, sempre foi utilizado por povos antigos, como sinônimo de poder, riqueza, virilidade. Apenas seguindo uma influencia negativa do catolicismo, usaram esse símbolo de exú para mostrarem-no como servo de satã, que, aliás, nunca existiu na mitologia afro, nem em outras, por ser apenas uma expressão do cristianismo. E suas ferramentas com o tridente, é fácil a explicação:

O tridente representa os caminhos que temos a escolher e dependerá de nós mesmos o qual escolheremos. Também o tridente é tão somente uma arma de guerra muito utilizada em tempos remotos, sendo em época mais atual, pelos gladiadores romanos. Exú também está ligado à agricultura, pois o tridente se formos observar, é um instrumento utilizado na mesma, principalmente pelos que lidam com a cultura do feno, tão utilizado para alimentar os animais. Como vemos nada de satânico existe em exú, e se houver algum satanismo em sua cultura, esse pertence tão somente aos seres humanos que dele se utilizam para tentarem derrubar seus desafetos.

Ao invocarmos exú, invocamos antes de tudo um guardião, um guerreiro que a sabedoria infinita e suprema de nosso Pai Criador, disponibilizou para nós, a fim de nos livrar dos seres inferiores que nada mais são que pessoas que aqui nesse mundo foram más, e que depois de desencarnarem, foram aprisionadas em “infernos” que eles mesmos criaram.

Saibamos, pois, nos utilizarmos desses seres para a prática do bem, e veremos o quanto podem nos dar de riquezas espirituais incomensuráveis, como por exemplo, a retirada de véus que nos impedem de vermos a beleza real que existe no Reino de Deus nosso Supremo Criador.

Sérgio Silveira, Tatetú N’Inkisi Lambanranguange: Odé Mutaloiá.

odemutaloia@gamil.com

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