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sexta-feira, setembro 12, 2014

INKICE TEMPO, SANTO TEMPO



Eis um dos maiores Santos da Nação Angola: Tempo. Grande senhor de tudo, até mesmo da razão. Existe um ditado popular que diz: “o tempo se encarrega de tudo, pois é ele, o senhor da razão”, e dentro da Nação Angola, entendemos perfeitamente o significado dessas palavras. Nada podemos fazer sem antes darmos satisfação a Ele, afinal, é antes de tudo, o Rei de nossa Nação. Governa absoluto sendo abaixo somente de Zambiapongo, ou, Deus.

Seu reinado, como o nome diz, é o tempo em si. É Ele, responsável direto por tudo que diz respeito às nossas vidas, e segundo os mais antigos, é “Pai” até mesmo de Oxalá, pois este precisou do Tempo para nascer. Senhor austero, que não se dá a muita conversa, preside nosso destino e também o do Universo em si. Carrega sobre seus ombros, a carga de toda a humanidade, bem como de todos os Mundos existentes, sejam eles, visíveis ou invisíveis. Tempo, é Governador da Natureza, da Lua, do Sol, da Terra, do Universo. Preside a mando de Zambiapongo, todas as diretrizes de nós, seres humanos, e cuida para que tudo venha a ser encaminhado, dentro das vontades do Supremo Pai, aquele que tudo criou.

É sincretizado com São Lourenço e tem seu assentamento, do lado de fora das casas de Candomblé, afinal, sendo Ele o Tempo em si, não compete telhado por cima de seu fetiche. Geralmente esse Orixá é posto em baixo de uma árvore frondosa e que não seja quizila de Santo, ou seja, uma árvore que tenha frutos que sejam tabus dentro de nossa fé. Geralmente a mais usada é a amendoeira, ou castanheira. Nunca podemos colocar Tempo em outro local que não seja na Natureza, diz assim sua cantiga: “Tempo não tem casa, Tempo mora na rua, a morada de tempo é no clarão da Lua”.

O que confunde muito a cabeça das pessoas, é o fato de suas cantigas serem todas em Português, mas, como outros Santos do Angola, suas cantigas são em Português pelo simples fato, de ter sido esse país, dominado por Portugal, muito antes do Brasil, e assim sendo, um dos idiomas lá falados, sempre foi o Português. Também afirmam os mais antigos na religião, que, Tempo nunca se manifestou na cabeça de ninguém na África, somente no Brasil foi que Ele se dignou a ter filhos, assim sendo, suas cantigas são no idioma da Terra onde escolheu para ter seus noviços.

Quando lidamos com esse Santo, lidamos diretamente com o Rei de uma Nação e assim sendo, temos que ter ao menos uma noção mínima do que fazemos, pois que, uma vez revoltado com uma pessoa, dificilmente voltará as pazes com ela. Não passa nada em nossas vidas, que Ele não esteja presente, seja nosso nascimento, o decorrer de nossa vida, com nossas tristezas e alegrias, e até mesmo nossa morte. Mas, engana-se os que pensam que Ele irá intervir e modificar nosso destino. Aliás, Orixá nenhum nunca fará isso, pois temos que cumprir à risca, tudo que o Pai Supremo marcou para nós. Afinal, nossa jornada na Terra, é antes de tudo, o aperfeiçoamento de nosso espírito, para que um dia, possamos gozar da presença do Onipotente.

Porém hoje em dia, vemos outras Nações que não sejam Angola, terem Tempo assentado. Bem, tenho 28 anos de Santo, nasci e fui criado dentro da Angola, conheci e convivi com pessoas que foram do Santo desde a mais tenra idade, e todas elas sempre afirmaram que somente a Angola pode ter este Santo assentado. Em minhas andanças pelo mundo, vi casas de outras nações, assentarem Tempo, de forma diferente, mas era Tempo sim. E isso, posso afirmar, é um equívoco muito grande. Somos de uma Nação, onde este Inkice é o Rei da mesma e assim sendo, somente nós podemos tê-lo assentado em nossos templos.

Nunca vi, em tempos que era yawô, este Santo assentado em outras casas que não fossem de Angola, inclusive vi várias vezes, sacerdotes de Kêto e de Gêge, afirmarem que somente Angola tem direito a ter Tempo.

Mas, hoje em dia as coisas mudaram muito. Algumas pessoas, por motivo de falecimento de seu zelador, foram para outras Nações e como amavam muito a Angola, não se desfizeram de Tempo, e com isto abriram brechas para que as demais casas assentassem o mesmo. Mas, está errado sim. Temos que ter em nossas casas o que é de nossa raiz. Da mesma forma que é um equívoco de muitos, alegarem que a grelha que se usa no assentamento de Tempo pode ser usada para outros fins. Ela é de um grande fundamento dentro de nossa Nação e somente os que realmente são iniciados na Angola sabem o que ela significa de verdade.

Muitos outros segredos são feitos aos pés de Tempo, tanto para a casa do Santo, como para o zelador, seus filhos e seus clientes, mas, também esses segredos, somente são revelados aos que foram raspados em nossa Nação e a ela permaneceram fiéis. Temos segredos, ou fundamentos que muitos desconhecem, mas, não saímos por aí mostrando aos quatro cantos do mundo. Ao contrário: fazemos questão de mantê-los em sigilo absoluto e somente os realizamos nos momentos certos e perante as pessoas que possuem direito de assistir. Afinal, Candomblé é hierarquia e ancestralidade e assim sendo, temos que respeitar seus mistérios.

Muitos conseguem ver alguma coisa ali, e outra acolá e já se acham verdadeiros conhecedores dos segredos da Angola, porém, posso afirmar: nossos segredos vão muito mais além, e os de Tempo estão arraigados diretamente em nossa existência. Não temos a necessidade de sair proclamando para todos nossos encantamentos. Também não os vendemos em banca de revista. Guardamos para que sirvam sempre para nós, como para os que frequentam nossas casas.

Não condeno os que divulgam a doutrina, afinal, também estou fazendo isso. Mas, sou contra a divulgação de segredos que não competem a terceiros. Temos que aprender que o Candomblé nasceu dentro de mistérios e assim deve permanecer. Explicarmos a origem, as doutrinas, as leis, é uma coisa, mas sairmos por aí ensinando a prática de nossos rituais, é outra.

Tempo também não é Santo para trabalho, para trazer cliente etc. e tal. Ele somente existe como Rei e como tal, deve ser reverenciado. Quando cuidamos deste Senhor, vemos que a energia em nosso entorno se modifica, e podemos sentir a presença até mesmo de nosso Orixá bem como de nossos antepassados que hoje fazem parte do Orúm, Céu. Isso porque Ele tem esse poder. Está ligado ao culto mais secreto que existe no Angola e sempre nos mostra sua grandeza e seu poder.

Ocorre que, como seres humanos, somos falhos e muitas vezes não percebemos o quanto os Orixás estão nos dando. Pois que, sempre buscamos o equilíbrio financeiro, e isso é um erro que cometemos com nossos Pais e Mães. Orixá é apenas uma religião, como outra qualquer e não têm culpa de nossas dificuldades. Temos que entender que vivemos em um mundo onde o desiquilíbrio financeiro sempre falou e sempre falará mais alto. Porque desde que o homem é homem, se deixou dominar pela ganância e assim tira de seu próximo, sem se importar se este tem o que comer ou não.

Mas, quando olhamos com mais atenção para nossa vida, vermos que nossos Orixás sempre estão nos guiando e nos amparando. Apenas fazem isso sem estardalhaço, fazem em silêncio, pois como Pais e Mães que são, amam a seus filhos e por eles fazem qualquer coisa. E assim se dá com Tempo. Em silêncio nos observa e nos guia em bons caminhos, sempre em busca de nosso aperfeiçoamento. Nunca nos deixando sofrer de fome, padecer nas mãos de nossos inimigos, nem mesmo ficarmos sem um teto para morarmos.

Quando o assunto é saúde, Ele prontamente nos socorre, entrando com seu poder e intercedendo junto à Obaluayê para que este nos socorra. Ainda, nos dá segundo suas diretrizes, a cura para as enfermidades, e se o momento derradeiro chegou, nos encaminha para o descanso que nosso espírito tanto anseia.

Comparado a um ancião, sempre está calado, observando e anotando sem suas memórias tudo o que fazemos nesse mundo de Deus. Nada passa desapercebido a Ele, e no momento certo, nos dará a recompensa que fizemos por merecer.  Nada teremos que não seja de nosso estrito merecimento e isso temos que ter em nossas cabeças. Quando uma criança nasce, Olorúm, Deus, traça para ela um destino, e ela vem com seus caminhos traçados, que são seus Odús e nada nesse mundo fará com que seja desviado deste destino. A palavra yorubá Odú, significa exatamente destino, não é uma palavra Banto, utilizada na Angola, e assim sendo, nada irá fazer com que aquela criança que nasceu se desvie do destino que Deus criou para ela.

Nosso espírito é livre para escolher os caminhos aqui na Terra, mas, seu destino se cumprirá de qualquer forma. Quando falamos em destino, não dizemos que determinada pessoa nasceu para ser bandido, mas, dizemos com relação ao que vai passar por esse mundo. Por exemplo: uma pessoa que ama por demais sua mãe, mas, no decorrer da vida, se vê em outro local distante e quando essa mãe vem a falecer, ele está impossibilitado de ir em seu velório. Isso é o destino se cumprindo.

Também não queremos dizer aqui, que Zambiapongo nos colocou na vida para sofrermos indefinidamente. Ocorre que quando Ele cria um espírito, dá a este a mente, e a ciência já provou que mente quem tem é a alma e não o corpo físico. Bem, essa mente, funciona como um cartório, e somente permitirá que este espírito descanse, após ver quitadas todas as dívidas que contraiu em sua existência.  Temos nosso destino, mas, temos o livre arbítrio, e os dois andam de mãos dadas, são partes únicas em nossa formação.

E Tempo, se encarrega de analisar tudo isso. É ele ainda, quem nos dá a chuva para irrigar a Terra e nossas plantações, mas também nos dá o Sol, para nos aquecer. Nos concede o dia para nossa labuta, mas, nos permite ter a noite para nosso descanso. Tempo como podemos ver, está associado diretamente a tudo que diz respeito à nossa vida terrena. Cuida para que os Mistérios Divinos, sejam preservados e para que suas determinações sejam cumpridas sem que, nada se perca.

O que seria de nós sem o Orixá Tempo? Simplesmente não existiríamos. Isso é o que nos prega os ensinamentos de nossos antepassados. Da mesma forma que seu poder traz o calor do Sol, também traz o frescor do vento, para que possamos respirar. Nos proporciona o ar, a água, a vida enfim.

Tempo, Zará Tempo. Tempo Mavile Caçange.

quarta-feira, julho 23, 2014

A IMPORTÂNCIA DOS BANHOS DE ERVAS



Todos nós sabemos da importância do nosso banho de asseio em nosso dia a dia, pois que, ele tira as impurezas de nosso corpo, leva consigo a poeira e todas as partículas que nos são nocivas, evitando assim doenças as mais variadas. Dentro dos rituais da Umbanda e do Candomblé, temos a mesma obrigatoriedade com os banhos de erva e até mesmo com outros, como os preparados com a água do milho vermelho, milho branco e outros, e cada um tem sua utilidade e hora certa.

Se por um lado, o banho de asseio, ou seja, com água, sabonete e shampoo, nos limpa o corpo físico, o banho de ervas tem a função de purificar nossa aura espiritual, refazer nossa energia e assim, permitir que as nossas entidades, possam se aproximar de nós de forma mais forte e sem influencias negativas. São esses banhos que nos aproximam mais, do Divino e dos espíritos mais elevados.

Em nossa jornada diária, passamos por encruzilhada, porta de hospitais, cemitérios, estradas, e tantos outros locais, e dentre estes, podem perfeitamente ter ocorrido, por exemplo, um desencarne e nós nem mesmo tomamos conhecimento. E aquela energia nos acompanha. Quantas vezes chegamos em casa ou no trabalho, com uma sensação de peso nos ombros? São essas energias que nos acompanham sem que percebamos.

Já em outras ocasiões, podemos passar por perto de algum Exú pagão, ou mesmo de algum egum que não fique satisfeito com nossa presença, e assim sendo, nos segue. Pode ocorrer que até mesmo um espírito em busca de luz nos acompanhe, pois como médiuns, funcionamos como antenas, e captamos tudo que há em nossa volta. E os banhos com as ervas sagradas servem justamente para afastar de nós essas energias negativas.

Quando vamos participar de uma corrente de Umbanda, é imprescindível que tomemos antes um banho de descarrego como é chamado o banho de ervas, para que seja retirada toda a negatividade de nossa volta e de nosso corpo, proporcionando assim, condições para que, nossos Guias possam se comunicar conosco de forma saudável. Antes de fazermos uma obrigação para Orixá, temos a obrigação de nos banharmos com ervas, pois somente assim, estaremos em sintonia com o Sagrado, e aptos para que a energia desses possa vibrar na mesma sintonia que a nossa.

Temos que nos ater, que lidamos com forças muito além da nossa, e até mesmo, muito além de nosso conhecimento, por mais que entendamos do assunto, e assim sendo, temos que nos prepararmos para a comunicação com este mundo tão Sagrado.

O banho de ervas, repara nossa aura, reconstrói toda a nossa energia, refaz o nosso contato com o mundo espiritual, portanto é de suma importância seu uso antes e depois de nossos ritos. Os antigos tinham o habito, por exemplo, de ao terminarem um ebó, tomarem um banho de ervas, a fim de afastarem de si, a energia negativa com a qual lidaram naquele trabalho. Isso é a mais pura sabedoria! Pois ao tomarem esse banho, era como se fizessem um ebó em si mesmo depois de darem o ebó em seu cliente ou filho de Santo.

As ervas sagradas ou Insabas, como chamamos na Angola, são partes de uma natureza viva que Deus criou, e depositou a mais pura energia para que purificassem os homens dos males que encontrassem em sua vida terrena. São elas protegidas pelo Orixá Agué e fazem parte dos mistérios mais profundos deste ser.

Porém, é de suma importância que um banho de ervas, seja receitado por um zelador, pois que, o banho que serve para um, não necessariamente serve para outra pessoa. Mesmo que o problema seja o mesmo, mas, temos a questão de que, existem ervas que servem para determinado Orixá, mas, são quizilas para outros. E isso pode sim, trazer consequências sérias para a vida da pessoa.

Existem ervas, por exemplo, que são ótimas para pessoas do Oxóssi, mas, que são quizilas para filhos de Xangô, e assim por diante. E esses fatos têm que ser observados e respeitados, e somente um zelador está apto a saber isso, pois faz parte dos fundamentos da religião, e esses fundamentos não são passados para os que não sejam iniciados, ou mesmo, para os que sejam iniciados, mas que não tenham idade de Santo suficiente para saber. Afinal, Candomblé é Hierarquia e Ancestralidade e temos que respeitar isso também.

Muitas vezes na ânsia de ajudar, a pessoa passa um banho que para ela foi muito bom, para outra pessoa, e isso termina causando mais problemas ainda na vida desta. Deve-se este fato à questão do Orixá, pois de acordo com a qualidade do Orixá da pessoa, muda-se tudo inclusive as ervas que ela pode fazer uso.

É muito importante então, que se mantenha o acompanhamento de um sacerdote para que, possa sempre estar tomando um banho de ervas, pois este é de grande importância para todos os rituais, seja de Umbanda, seja dentro dos preceitos sagrados dos Orixás.

Se o banho de asseio retira as partículas materiais de nosso corpo, o banho de ervas, retira as partículas negativas espirituais, dando-nos assim, uma percepção maior e melhor da vida, concedendo-nos maior capacidade de incorporação e até mesmo uma melhor visão no jogo de búzios. Sempre devemos tomar um banho de ervas. Que seja um por semana, afinal, andamos todos os dias, e todos os dias, acontecem fatos novos na vida.um banho a cada sete dias, é suficiente para nos manter em uma sintonia boa com nossos Orixás e Guias, isso se não formos realizar nenhum tipo de trabalho.

Depois de tomarmos o banho, é importante também, devolvermos a erva macerada na natureza, ou seja, depositemos a mesma em baixo de uma árvore ou arbusto para que Agué a reutilize afinal, dentro do Candomblé nada se perde, tudo se aproveita. Não temos o direito de desperdiçar nada. Depois de usarmos a erva, ela serve ainda de adubo para oura planta, e isso é sim, o reaproveitamento que Ossanha, espera de nós, seres humanos, porque assim Deus determinou.

Podemos observar que dentro das Leis do Orixá, a natureza está acima de todos os interesses, isso porque eles mesmos, os Orixás, dependem dela. Nosso corpo depois da morte, não volta para a Terra? Por que seriam então, as ervas desperdiçadas?

Omim eró: banho de ervas, a força dos Orixás, Caboclos e Pretos Velhos.

terça-feira, julho 22, 2014

OBALUAYÊ



Obá= Rei, Ilú= Céu, Ayê= Terra, esta é a tradução mais comum e mais próxima para o nome de nosso Grande e amado Obaluayê. Mas, traduzimos ainda como: Rei dos espíritos do céu e da terra. Isso porque esse grande e valoroso Orixá, além de guerreiro, caçador, e curandeiro, é também o senhor absoluto da morte, ou seja: guardião dos cemitérios e dos mortos que lá residem. É o nosso elo de ligação com nossa ancestralidade e nada podemos fazer sem sua permissão, dentro do culto aos ancestrais.

Dentro da abrangência de seu reinado, está o solo, o mesmo solo que pisamos, andamos, cuspimos, escarramos e depositamos nossos mortos e tudo que não mais nos interessa, ou seja: mais dia, menos dia, tudo volta para o mesmo local de onde saímos, a terra e este é domínio de Obaluayê.

Do mesmo material que Olorúm usou para nos criar, também lançou mão para criar várias outras espécies de vida e de riqueza. E tudo isso pertence a Obaluayê que como seu guardião, divide com quem achar merecedor, até mesmo as riquezas que surgem em baixo do solo. Que somos oriundos do pó, disso não resta dúvidas e quem ousa duvidar, coloca em xeque a existência do próprio Deus, esse mesmo que criou a tudo e todos, e que nos provém, da mesma forma que provém aos pássaros, aos peixes, aos quadrúpedes e todos os seres vivos. Então, não temos o direito de duvidar de nossa criação e muito menos de nosso Criador.

Somos sim, feitos do pó e para o pó voltaremos mais dia menos dia. Outros já foram antes de nós e esses são nossos antepassados, e para que possamos render-lhes o culto necessário, precisamos da permissão de Obaluayê, pois que, sem esta, não podem nem mesmo nossos ancestrais virem receber as oferendas que lhes ofertamos.

Seu poder é incomensurável e inenarrável, porém, mesmo com tanto poder em suas mãos, veste-se de chita e palha da costa, tão somente para nos mostrar que nesse mundo nada somos, nem nada seremos nunca, pois que, somente à Deus compete toda a sabedoria e glória por tudo.

Como Ministro de Olorúm, Obaluayê tem capacidade para fazer de nós, seres humanos o que achar necessário, mas, passa seu tempo a nos dar exemplo de dignidade e humildade, pois quando sai em nossas festas vestido de forma tão humilde, revela ali antes de tudo, o verdadeiro sentido da vida: a humildade.

Como Rei dos espíritos do Céu e da Terra, tem responsabilidade imensa sobre nós e nossos antepassados, representa nosso elo de ligação direta com nossa ancestralidade, mas, nem por isso, usa de tanto poder para satisfazer seus caprichos, pois em sua visão, bem como na de todos os Orixás, a vontade suprema é de Deus e a eles, cabe somente o respeito às suas leis.

Irmão de Oxum Marê, de Agué e consequentemente, filho de Nanã Buruquê, tem seu culto nas segundas feiras, pois sendo filho de sua mãe, governa com ela as almas e a morte. Senhor absoluto dentro dos cemitérios, cabe a ele a permissão para que uma alma possa voltar a esse mundo mesmo que para uma visita aos que aqui deixou.

Erroneamente vemos esse Orixá ser associado a Exú. É ele na verdade, nossa ligação com nossos antepassados. Senhor do culto a estes, somente através de oferendas a ele podemos entrar em conexão com os espíritos daqueles que se foram desse mundo, seja para pedir um favor, seja para matar a saudade que sentimos. Como médiuns, sabemos que a morte nada mais é, que a transformação de uma energia que somos. Ou seja: deixamos de existir na carne, e passamos a existir no mundo espiritual apenas. Nada é finito naquele mundo, e à Obaluayê, compete tanto o zelo, quanto a guarda e assim sendo, a manutenção dos segredos dos mortos.

Seu poder permite que nós que ainda estamos habitando a esfera terrena, tenhamos através de seu Xaxará, condições de termos a presença invisível de nossos entes queridos conosco. Não fosse assim, não saberíamos dizer as proporções que poderíamos ter de caos no mundo que conhecemos, pois que, inimigos da humanidade, poderiam ir e vir livremente e causar danos irreversíveis em nosso meio.

Se precisamos de um favor de babá egum, temos que agradar Obaluayê, para que aceite que aquele ser transpasse o portal de seu mundo e venha até nós, receber sua oferenda e intervir em nosso favor. Se temos uma pessoa sofrendo perseguição de um egum, ele da mesma forma, se encarregará de por as coisas em seu devido lugar e devolver a paz para a vida daquela pessoa. Afinal é ele o guardião dos mortos, e o elo de ligação entre nós, nosso mundo e nossos ancestrais.

Não viveríamos pois não existiríamos, se não fossem nossos ancestrais, e Obaluayê é a principal fonte de lembrança que temos deste fato. Pois que, ali está, presente em todos os nossos rituais com seu doburú, pipocas, tão utilizadas, tanto na vida, quanto nos ritos fúnebres. Em praticamente todos os rituais que fazemos, temos a utilização desta comida, e ai de nós se a deixarmos de fora, pois ele como Orixá guerreiro, caçador, curandeiro e até mesmo, feiticeiro das tribos africanas, nos cobrará por termos nos esquecido.

Ao louvarmos Obaluayê, louvamos também toda a ancestralidade, seja nossa, como de toda a humanidade, afinal, tudo e todos, possuem seu começo, nada nem ninguém, nasceu por si só. Atotô Ajuberú Balé Balé, diz a sua saudação. Louva-se assim toda uma hierarquia, louva-se o princípio de tudo, honremos pois este nome, e o saudemos com respeito, afinal, grande é seu poder, mas maior ainda é sua humildade.